In: Religião
20 mai 2012(***)
“Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:
- Bom dia, meninos. Como está a água?
Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:
- Água? Que diabo é isso?”
(David Foster Wallace, Discurso de paraninfo para formandos do Kenyon College, 2005)
(***)
“Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos.”
(At 17,27-28)
In: Poesia
19 mai 2012Antônio Osório
É um bem que me roubem e explorem;
um bem que saibam quanto valho (nada);
um bem que espreitem, que circulem
incólumes, que amedrontem e persigam;
um bem que me desprezem e destruam
e um bem maior ainda que me ignorem,
porque é preciso pagar, e caro, a vida.
In: Catolicismo
18 mai 2012“… tive o desejo de contar ao papa o sonho de Joaquim Nabuco. Ele sonhou que esteve com o papa ( e de fato esteve com Leão XIII). Perguntou como deveria chamá-lo. Vossa Santidade ? Vossa Graça? Vossa Grandeza? Vossa Beatitude? O papa no sonho respondeu-lhe: Chame-me Vossa Dor. Apenas Vossa Dor.”
(Antônio Carlos Villaça sobre um encontro do Papa João Paulo II com os intelectuais brasileiros no Sumaré, Rio de Janeiro, em 1980.)
Fonte: Antônio Carlos Villaça, Degustação, Memórias, 1994, pg. 57
In: Filosofia|Literatura
17 mai 2012David Foster Wallace
Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:
- Bom dia, meninos. Como está a água?
Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:
- Água? Que diabo é isso?
_______________________________________
(*) discurso de paraninfo para formandos do Kenyon College, 2005
In: Poesia
17 mai 2012Murilo Mendes
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
In: Poesia
16 mai 2012O poeta frustrado tirou a poeira dos móveis
E apareceu refletido seu rosto quando menino
Nas paredes desembaçadas.
A mulher amada estranhou tal fascínio pela infância.
Não entendia que a saudade da meninice
Não era saudade das coisas que se foram.
Antes a nostalgia das coisas que virão…
Paulo Leminski
minha mãe dizia:
- ferve, água!
- frita, ovo!
- pinga, pia!
e tudo obedecia
(In: Caprichos e Relaxos,1987)
In: Literatura
15 mai 2012Marcia Tiburi
RESENHA SOBRE O MENDIGO QUE SABIA DE COR OS ADÁGIOS DE ERASMO DE ROTTERDAM de Evandro Affonso Ferreira (ed. Record, 2012. 127p.)
O título já pode produzir inquietação. Afinal que aquilo que supomos saber de um mendigo jamais incluiria que fosse culto, que soubesse quem foi Erasmo e muito menos que tivesse lido seus adágios sobre os quais, aliás, poucos sabem. O personagem criado por Evandro Affonso Ferreira inverte essa lógica nos dando o que pensar no instante em que a erudição de um homem se mede com seu próprio abandono e o abandono generalizado do mundo ao seu redor. O que sabemos, por meio desse homem com profundas cicatrizes interiores é que a miséria das ruas pertence a todos: “somos todos – cada um à sua maneira – fedentinosos e desvalidos e patéticos e constrangedores.” Que no fundo, de certo modo, todos pertencemos a este “grupo dos suicidas graduais vivendo à margem das estatísticas”.
O mendigo narra a história a um senhor debaixo de uma marquise como um Riobaldo que perdera seu sertão e tem agora o cenário da catástrofe urbana a sua frente. Entre a mulher-molusco, arremedo confuso de maternidade e o menino-borboleta, arremedo de filho, nosso mendigo erasmiano, como o narrador do Grande Sertão: Veredas, observa o desfecho da vida dos despossuídos como ele. Enquanto isso, sendo daquela estirpe de poetas românticos que idealizam uma musa, impressionantemente culta como ele e da qual só lhe restaram as lembranças, ele tenta manter-se inteiro entre a razão e a sensibilidade prestes à devoração pela loucura.
Não é à toa que Erasmo, o autor de Elogio da Loucura, seja o alter ego desse homem perdido nas ruas, que olha para a desnudez da condição humana e pede passagem à poesia sustentada a despeito da miséria. O texto é o mantra do nonsense, ritmo diário que escutamos sem ouvir, do qual este livro é o grito sutil. Por isso é que Evandro marca certas frases e as repete fazendo de sua literatura uma lembrança da oralidade.
Mais longe, descobrimos que é a erudição como emblema do conhecimento inútil, que está sendo questionada como escape, como resto que se tem às mãos em um mundo que só valoriza bens materiais, poder e vida fácil, e que reduz a corpo, à mera vida sobrevivente, todo aquele que por motivos vários, não suportou a luta de vida e morte em que sempre vence a ordem aviltante das coisas. No fundo, há o sistema sustentado em miséria e dor, um sistema em que toda a cultura é tratada como lixo e em que o lixo tem muito mais chance de se tornar “cultura”.
SOBRE O AMOR
O drama do personagem, cujo desfecho diz o quanto a literatura de Evandro Affonso Ferreira não está para acordos fáceis, mostra o conflito e a dor presentes no encontro entre realidade e fantasia, idealização e concretude, esperança e ameaça de esquecimento. Podemos dizer que este é um romance sobre a fragilidade da memória. E mais ainda que se trata do amor enquanto ele é uma forma de desespero.
A musa, o objeto da idealização desesperada desse sentimento sob ameaça de extinção, é uma médica oncologista, ou é Billy Holliday, não importa. Seu nome verdadeiro é apenas uma letra grafada pelas ruas, em todos os espaços vazios da cidade, como emblema do amor, da memória e da esperança. N de nada, é a logomarca do amor perdido que, grafitada pela cidade, tem a chance de criar a antinarrativa da vida. Essa vida em N feito esquina, esse ziguezague das ruas, essa “insígnia esperançosa” com que todos estamos marcados.
Nosso mendigo pichador nos faz ver também que é o poeta e o escritor que estão em extinção em um mundo de barbárie cada vez mais descarada. Um mundo em que não há memória, porque não há história já que os narradores foram extintos. Ser escritor é ser o anti-herói, esse mendigo em um mundo analfabeto, no qual a literatura se vende ao jornalismo, à publicidade e à Medusa petrificante da indústria cultural. Resta uma letra como esperança final, e também ela pode ser devorada pelos ratos que sinalizam o “destrambelho in totum” ao qual todos que ainda sonham com um mundo melhor, um mundo com amor, estão condenados.
Para os que não tem medo do pensamento e do estilo de Evandro Affonso Ferreira, o efeito é o aprendizado da coragem com que ele erigiu essas páginas fazendo ver que, para além da esperança, ainda há a chance da literatura.
Obrigada Evandro Affonso Ferreira por ter escrito esse livro. Acho que todos os que amam a literatura brasileira agradecem.
Fonte: Filosofia Cinza
Para Angela Araújo de Souza
Janine Huguenin Meirelles de Souza,
Mylene Iunes de Souza,
Silma Sueli Huguenin Meirelles,
e todas as mães do mundo
Acorda a casa. Todos a buscam. Procuram-na mãos e bocas, vozes e almas rodeiam-na. O perfume de sua doce piedade os atrai. Eles, seus filhos, só vivem apoiados em sua presença. É mãe, sustentáculo da casa. Já não vive para si, mas estende-se toda na cama do sacrifício; doando-se, deixando pedaços de si pela casa, em noites mal dormidas, no pouco tempo para tomar um café, na hora do almoço em que a todos alimenta e a si mesmo se esquece: sentar e comer. Ela se dá.
Acorda a casa. Sugam-lhe a existência. Às vezes têm-se a impressão de que vai sucumbir ante tamanha exigência. Fazer filhos felizes é uma anulação do ser? A cada dia tem que parir. A cada manhã parir forças, parir sorrisos e uma alma radiante que ilumine toda a casa. E todos se reúnem ao seu redor, como insetos em volta da lâmpada. A mãe é como uma cidade sitiada. Seus filhos, muitos ou poucos, desdobram-se em tantos que a cercam de todos os lados e ela parece perceber que este cerco é parte do que faz frutificar sua essência e conhecer – com toda a dor e júbilo de uma parturiente cotidiana – o cerne de sua vocação.
Acorda a casa. Ela abre-se como um ventre que acolhe. Enclausura-se na liberdade do amor. Todos os seus desejos estão em si. Elas os oferece em altares cotidianos. Professa sua fé com seu corpo partido.. É que a mãe vai aos poucos entendendo que não cria os filhos para si, mas para subir os calvários do mundo. Neste entendimento está a tribulação e o gozo, na esperança das ressurreições diárias, o gozo e a dor de ser mãe.
Acorda a casa. Ela ensaia desistir, afinal todos temos a carne maculada pela nódoa do pecado. Mas ela sabe que calvários incluem desânimos e que as quedas – aquelas que nos deixam prostrados por um momento – prenunciam grandes avivamentos. A mãe deixa que as escamas caiam dos olhos, já não alimenta ilusões, sabe que nesta vida alegria e tristeza andam de mãos dadas; junto ao trigo cresce o joio e é preciso se munir de uma ardente paciência para colher os frutos ao final. É deste amálgama que é feita a alma materna: paciência, ternura, dor, esperança, gozo e uma plentiude que não tem nome e que eu, simples filho, não ousarei tentar descrever aqui. É mistério. E pertence tão somente às mães.
Feliz dia das mães!
"A religião não era o ópio e sim a poesia da humanidade".
(Harold Bloom sobre Flannery O'Connor).