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Precisamos menos de catolicismo de internet e mais de vivência comunitária.

Meu bairro é avizinhado por colônias de imigrantes, região de gente que trabalha com agricultura e vinhedo. Minha paróquia é “paróquia de camponês”, não é lugar de gente que passa o dia a se ocupar de debates e reflexões teológicas.

Direcionar olhares soberbos ao povo não lhe faz um católico melhor, o juízo “inocentes ignorantes” é carregado de orgulho. Eu não confio em católico que decora a Suma Teológica, mas tem nojinho de vivência comunitária: não vai à missa com o povão, desdenha a novena com as “véias”, não sabe o gosto do quentão da quermesse, nunca apareceu na festa da comunidade porque tem nojinho de sentar à mesa com “degenerados” e encher a pança de churrasco.

A farda de cruzado virtual serve para ser abandonada, rapaz. É uma atitude muito estranha essa de sair condenando todo mundo.

A religiosidade do povão, tantas vezes por mim desprezada, surte-me agora um profundo encantamento e respeito. No catolicismo dos simples, nas romarias e devoções populares há algo que os vídeos de apologética não são capazes de ensinar.

Se aproxime da vida paroquial e perceba como o suspiro do decaído é expressado com maior beleza entre o povo. Escute com atenção as badaladas dos sinos das capelas, estão a prenunciar badaladas cósmicas. É na Igreja, entre o povo, que se é cristão, não nas comunidades rad-trad do facebook.

(Ana Amorim, no ask)

Imagem: Paróquia Santo Antônio

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Família sempre existiu, mas quando Jesus viveu entre nós ela não ia nada bem das pernas. Os hábitos sexuais, no antigo Império Romano — ao qual estava submetido o povo judeu —, degradaram-se a tal ponto, que comprometiam seriamente a convivência familiar. O pai era um déspota, com todo o poder sobre a esposa e os filhos. Homens doentes, incapacitados para o trabalho, eram enjeitados e abandonados à própria sorte. O aborto era uma prática normal. Crianças valiam pouco, sobretudo se fossem meninas; e, quando nasciam deficientes, podiam ser assassinadas e até vendidas.

Antes da Igreja, a família era, portanto, bastante imperfeita. O cristianismo deu-lhe um novo rosto e um novo sentido: passou a ser um grupo de pessoas em que esposa e filhos tinham o mesmo valor que o pai, que continuava a ser o chefe, mas com poder limitado pelo amor cristão, que gerava respeito recíproco. Evidentemente, a mudança não se deu por passe de mágica: foi produto de um esforço lento e permanente, que ainda continua.

A Igreja Católica foi pioneira na defesa dos “verdadeiros” direitos humanos. Quando São Paulo disse que já não havia diferença entre judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher, pois eram todos “um” em Jesus Cristo (Gal, 3, 28), estava iniciando a mais profunda restauração da família de que se tem notícia na História; uma restauração, repita-se, que se deu muito devagar, pois o cristianismo católico não recomenda métodos revolucionários.

A humanidade depende da família como o rio da sua nascente. A necessidade do homem de unir-se fisicamente a uma mulher, resultando inevitavelmente em filhos, é a razão de ser da espécie humana. O cristianismo, porém, acrescentou a essa realidade biológica e natural alguns elementos sobrenaturais, que fazem da família cristã um conjunto de pessoas ligadas entre si não só pelo sangue humano, mas sobretudo pelo sangue divino que o Cristo derramou na Cruz.

Quais são esses elementos que a diferenciam? Todos os seus membros são iguais perante Deus. Sua base é o sacramento do matrimônio, no qual homem e mulher se unem por livre e espontânea vontade, tanto para a alegria do encontro íntimo como para a geração de filhos, prometendo fidelidade mútua. É, por vontade divina, humanamente indissolúvel, e tem, como finalidade mais importante, a santificação dos seus membros para a salvação eterna.

Já nos primeiros séculos do cristianismo, o comportamento sexual dos casais católicos despertou a admiração dos próprios pagãos. Quem ganhou com a indissolubilidade do casamento foram os filhos e, dessa renovação da família, surgiria uma civilização diferente de todas as anteriores: a nossa civilização ocidental, a qual, com todos os seus defeitos, ainda é a que mais se aproximou do modelo desejado por Deus. Depois de Jesus, a família já sabe como deve ser para merecer o Céu.

Não esqueçamos que Deus também é família — Pai, Filho, Espírito Santo — e nos quer incorporados a ela, através do modelo da Sagrada Família de Nazaré. É a família humana que continua, aqui no mundo, a obra divina da Criação, mantendo vivas as verdades religiosas e morais permanentes, transmitidas de geração a geração, como prenúncio da inumerável família ressuscitada à qual pertenceremos um dia, na casa do Pai — mais numerosa que as areias do mar e as estrelas do céu.

Ser família é nosso destino eterno. É preciso agradecer a Deus, sempre, pelo modelo de família que nos deixou, através da Igreja. Agradeçamos por ela, defendendo-a de seus inimigos.

(Publicado no jornal Agora Batatais, 05 de agosto de 2016)

Fonte: jczamboni

 

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Fonte: Meditatio – Roberto Mallet

 

O Cristo não é
um belo episódio
da história ou da fé:

 nem o clavicórdio
nos dedos da luz,
nem o monocórdio

chamado da Cruz.
O crucificado
chamado Jesus

é o encontro marcado
entre a solidão
e o significado

 do teu coração:
de um lado teu medo,
teu ódio, teu não;

do outro o segredo
com seu cofre aberto,
onde teu degredo,

onde teu deserto,
vão morrer, mas vão
morrer muito perto
da ressurreição.

 

Do livro As horas de Katharina.

Fonte: Dicta & Contradicta

Áudio: SubmundoTV

 

The nativity

As conveniências da Encarnação

Esta grande obra realmente convinha sob todos os aspectos à bondade de Deus. Se um rei construiu uma casa ou vila, e esta, por negligência dos moradores vem a ser assaltada por ladrões, ele não a abandona; defende-a e protege-a como coisa própria, considerando, não o descaso dos locatários, mas o que lhe convém a si. Com maior razão, o Verbo divino do boníssimo Pai, vendo o gênero humano, sua criatura, desandar para a corrupção, não o abandonou; mas, pela oferta de seu próprio corpo, extinguiu a morte que se associara aos homens, por seu ensinamento corrigiu as negligências deles, por seu poder restaurou a raça humana. Disto podemos persuadir-nos consultando os teólogos enviados por Deus e lendo seus escritos, onde se tem que: “o amor de Cristo nos impele a este pensamento, o de que se um só morreu por todos, todos morreram; ora, ele morreu por todos, a fim de que não vivêssemos mais para nós, mas para aquele que por nós morreu e ressuscitou, nosso Senhor Jesus Cristo” (2Cor5,14-15). Lemos ainda: “nós vemos aquele que foi posto um pouco abaixo dos anjos, Jesus, coroado de glória e honra por causa dos sofrimentos de sua morte, a fim de que assim, pela graça de Deus, sua morte aproveite para todos os homens” . A seguir, a Escritura indica por que nenhum outro, senão o Verbo de Deus, se devia encarnar: “convinha que aquele, para quem tudo é e por quem tudo é, desejando levar um grande número de filhos à glória, aperfeiçoasse pelo sofrimento o autor da salvação deles” . Por aí se indica não caber a outro, mas ao Verbo de Deus, que tinha feito no princípio os homens, re erguê-los da corrupção que os atingira. Se o Verbo assumiu um corpo, foi para oferecê-la em sacrifício em prol dos corpos semelhantes ao seu – o que também ensinam as Escrituras: “como os filhos participam da carne e do sangue, ele participou dessas mesmas coisas, a fim de destruir por sua morte o demônio, que tinha o império da morte” Pois, pelo sacrifício de seu corpo, ele acabou com a lei que pesava sobre nós, renovou para nós o princípio da vida, dando-nos a esperança da ressurreição. Antes, foi por causa dos homens que a morte dominou sobre os homens; agora, pela encarnação do Verbo de Deus ela foi destruída, pois ressurgiu a vida, como diz o Apóstolo, portador de Cristo: “por um homem veio a morte, e por um homem a ressurreição dos mortos; da mesma forma que todos morrem em Adão, em Cristo todos serão vivificados” . Já não mais morremos como condenados, e sim como os que irão despertar; aguardamos a ressurreição universal, que a seu tempo nos mostrará o Senhor Deus, aquele que a criou e no-la concede. Eis a primeira razão da Encarnação do Salvador.

A recriação do homem

Dado que os homens se tinham pervertido na irracionalidade e que a impostura dos falsos deuses propagava por toda parte sua sombra, eclipsando o conhecimento do verdadeiro Deus, que haveria de fazer o Senhor? Guardar silêncio frente à situação e deixar os homens iludidos, ignorando seu Deus? Mas então para que houvera criado o homem à sua imagem? Ocorria simplesmente tê-lo criado sem razão; ou, do contrário, não o deixar viver a vida dos irracionais.Para que lhes houvera também comunicado, desde o início, a noção de Deus, se agora não se mostravam dignos de a receber? Melhor fora não a ter conferido no princípio. Pois que glória advém para o Criador, se os homens, suas criaturas, não o adoram e até pensam ser feitos por algum outro? Tê-los-ia criado para outros?

Um rei, mesmo humano, não permite que suas cidades se entreguem a estranhos e se submetam a eles. Adverte os súditos, envia-lhes mensageiros e, se necessário, vai em pessoa tentar comovê-los: unicamente para evitar que sirvam a senhor alheio e se inutilize a obra sua. Com mais razão, Deus não se apiedaria da criatura a fim de evitar que errasse longe de si e fosse servir a fantasmas inexistentes? Tanto mais que tal erro seria causa de ruína para o ser que um dia participou da imagem de Deus!

Que haveria pois de fazer o Senhor, senão renovar o que era nos homens a divina imagem, a fim de por ela chegarem ao seu conhecimento? Mas como se realizaria isto de outro modo que não pela presença da própria Imagem de Deus, nosso Salvador Jesus Cristo?

Sim, a coisa não seria realizável jamais por homens, pois também foram criados segundo a imagem; nem por anjos, que não são em si mesmos imagens. Veio, pois, o próprio Verbo de Deus, Imagem do Pai, a fim de recriar o homem segundo a divina imagem; e se esta obra não se podia fazer sem destruição, sem a corrupção da morte, convinha que ele assumisse um corpo mortal, para nele destruir a morte e renovar os homens segundo a divina imagem. Com vistas a tal obra nenhum outro se credenciava mais que a própria imagem do Pai.

Se aos poucos se apagou uma efígie impressa na madeira, pelo acúmulo da pátina exterior, pode acontecer que sua renovação só se torne possível, ali no mesmo material, pela presença do modelo, cujos traços se desfiguraram. Não se irá recusar o material onde a figura fora antes impressa, mas se procurará compor nova imagem . Da mesma forma, o Filho santíssimo do Pai celeste, sendo a imagem do Pai, veio até nossa região, visando renovar o homem criado segundo seu modelo, visando remir os pecados daquele que estava perdido, a fim de reencontrá-lo; conforme as palavras da Escritura: “eu vim para encontrar e salvar o que estava perdido” . Assim, dirá também ele aos judeus: “se alguém não renascer, não poderá ver o reino de Deus” , aludindo, não a um renascimento a partir da mulher, como pensaram os judeus, mas ao renascimento que é a recriação da alma segundo a imagem divina.

Um bom mestre se interessa pelos alunos, procura descer, com ensinamentos mais simples, aos que não entendem as lições mais difíceis. Assim também faz o Verbo de Deus, conforme Paulo: “já que o mundo, com sua sabedoria, não chegou a conhecer a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem” . Estando os homens desviados da contemplação divina e mergulhados em profundo abismo, com os olhos voltados para baixo, a procurarem Deus na criatura e nas coisas sensíveis, fabricando para si mesmos deuses, de homens mortais e de demônios, eis que o Verbo divino, “filantropo” e salvador, assume um corpo e vem viver como homem entre os homens, atrai a si a percepção dos sentidos – para que pudessem conhecer a verdade e chegar ao Pai os mesmos que situavam a Deus entre os seres corpóreos. Sendo homens e tudo pensando humanamente, eis que eles agora, onde quer que se deixassem levar pela percepção sensorial, encontravam o ensinamento da verdade. Em sua fascinação pelas coisas criadas, viam agora que elas confessavam o Cristo Senhor. Em sua admiração pelos homens – que os levava a deificá-los – viam agora as obras do Salvador e percebiam que só ele, entre os humanos, é filho de Deus, não havendo em parte alguma obras comparáveis às do Verbo divino. Tinham sido seduzidos pelos demônios, eis que agora os viam expulsos pelo Senhor; e também por isto reconheciam-no como a única Palavra divina, confessando não serem deuses os demônios. Tinham sido obcecados pelo pensamento nos mortos, a ponto de renderem culto aos heróis, divinizados pelos poetas; eis porém que agora viam a ressurreição do Salvador e reconheciam a precedente ilusão, passando a atestar que o único verdadeiro Senhor é o Verbo de Deus, dominador da morte.

Foi para a obtenção desse resultado que ele apareceu como homem, e morreu, e ressuscitou. Através de suas obras fez empalidecerem as obras de quaisquer outros homens, podendo assim todos atrair a seu verdadeiro Pai, consoante a palavra: “eu vim salvar e encontrar o que estava perdido”.

Uma vez que o espírito humano caíra no sensível, o Verbo se abaixou ao ponto de se tornar visível corporalmente para chamar a si os homens, atrair para si os sentidos deles: viam-no humano, mas autor de obras superiores às humanas, persuadiam-se de que era o próprio Deus, o Verbo e a Sabedoria do verdadeiro Deus. Confira-se o que diz Paulo: “enraizados e fundados na caridade, possais compreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade; conhecer enfim a caridade de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento; a fim de vos tornardes cheios da plenitude de Deus” . O Verbo se manifesta em toda parte, em cima e em baixo, na profundidade e na extensão, na altitude da Criação e na humildade da Encarnação, na profundeza dos limbos, na largura do mundo: tudo está cheio do conhecimento de Deus. E por isto mesmo ele não ofereceu, desde o primeiro momento de seu advento, seu sacrifício por nós, entregando o corpo à morte e ressuscitando-o; assim se teria tornado logo invisível! Mostrou-se visível, permaneceu longo tempo corporalmente, realizando obras e sinais que o fizessem conhecido não só como um homem mas como o Verbo de Deus. Sob um e outro aspecto mostrava sua filantropia, na Encarnação: fazia desaparecer a morte e nos renovava, revelando ao mesmo tempo, pelas mesmas obras, sua invisibilidade, levando-nos ao reconhecimento de que é o Verbo do Pai, o chefe e rei do universo.


Fonte: GOMES, C. Folch. Antologia dos Santos Padres. Ed. Paulinas. São Paulo, 1979

Link: Ecclesia

 

bernardo

São Bernardo de Claraval nasceu em Fontaines, França, no seio de uma família nobre, em 1090 e faleceu em Claraval em vinte e um de agosto de 1153. Aos vinte e dois anos ingressou no mosteiro cisterciense de Citeaux, seguido por todos os seus seis irmãos e mais trinta jovens da nobreza que quiseram seguir o seu exemplo. Três anos depois Santo Estevão enviaria o jovem Bernardo, o terceiro a deixar Citeaux, à frente de um grupo de monges para fundar uma nova comunidade no Vale do Absinto, o Vale da Amargura, na Diocese de Langres. Bernardo o chamará de Claire Vallée, o Claro Vale, Clairvaux (Claraval), em 25 de julho de 1115, e os nomes de Bernardo e Claraval não mais se separariam. O presente artigo é um trecho do capítulo dedicado por Daniel-Rops ao Santo no terceiro volume da sua História da Igreja de Cristo.

 

O DEFENSOR DA FÉ

 

São Bernardo defendeu a lei de Cristo não somente no plano do comportamento moral, mas também no plano doutrinal, e com a mesma energia. A sua atitude foi muitas vezes mal interpretada; chegaram até a ver nele um arrebatado, um fanático, pronto a desencantar pretensos erros e a combater ferozmente os que lhe pareciam defendê-los. Mas as testemunhas que descrevem assim o abade de Claraval são suspeitas. Berengário de Poitiers, por exemplo, diz dele que tinha “a alma cheia de rancor”, mas, sendo discípulo de Abelardo, é possível que fosse ele próprio quem cedesse ao rancor…

 

Apresentaram-no também como um torturador zeloso em atear fogueiras, um predecessor de Torquemada. É verdade que concordou em que os hereges fossem entregues ao braço secular e queimados – o que, é preciso dizê-lo, era a opinião mais difundida no seu tempo. Mas ele próprio explicou a atitude que a Igreja deve assumir perante o erro: não deve recorrer às armas sem mais nem menos, mas usar de todos os meios possíveis para convencer os que erram. Se eles persistem no erro, isto é, se se tornam um perigo público, então que se deixe “morrer os que preferem morrer a voltar para Deus”.

 

Veremos o que foi nesta época a fermentação dos erros, como se desenvolveram doutrinas confusas, de tendências neomaniqueístas, sobretudo no Languedoc, com os albigenses. Alertado em 1143 pelo seu amigo Evervin, preboste de Stanfeld, São Bernardo iniciou uma vigorosa polêmica contra os partidários dessas doutrinas, principalmente Pedro de Bruys e Henrique de Lausanne. Em 1145, acompanhou o legado Alberico ao Sul, pregou com algum êxito e obrigou Henrique de Lausanne a fugir da discussão, impressionando as multidões com o seu exemplo e os seus milagres, mas sem participar de qualquer das violências insensatas que se desencadearam antes mesmo que a propagação da heresia exigisse a dolorosa “cruzada dos albigenses”.

 

Bernardo, portanto, não só não foi um fanático, como chegou até a mostrar, numa ocasião bem característica, que a defesa da verdade cristã não poderia desvincular-se da defesa da caridade. Quando estava em andamento a segunda Cruzada, um religioso da sua Ordem , chamado Rodolfo, suscitou com a cumplicidade de certos nobres um movimento popular anti-semita, que se espalhou por Colônia, Mogúncia, Worms, Spira e Estrasburgo. Informado do que se passava, Bernardo deixou rapidamente Flandres, onde se encontrava pregando a Guerra Santa, e correu ao Reno para impedir o massacre dos judeus.

 

Houve um caso, porém, em que ele pôde parecer um fanático, e não somente um fanático, mas o típico monge “obscurantista” que se opõe ao progresso: foi o célebre duelo contra Abelardo.

 

Não teria sentido apresentar São Bernardo como um ignorante. Toda a sua obra testemunha uma imensa erudição, que não resiste ao prazer de citar Estácio, Ovídio e Lucano ao correr da pena. Étienne Gilson diz com toda a razão que São Bernardo “renunciou a tudo, menos à arte de bem escrever”. A sua obra literária é de uma riqueza extraordinária, tanto em quantidade – com não menos de trezentos e trinta e dois sermões e catorze tratados, sem falar de uma correspondência de que possuímos ainda mais de quinhentas cartas –, como em qualidade, em variedade e numa elegância por vezes requintada. A sua Vida de São Malaquias, que nos ensina tantas coisas curiosas sobre a Irlanda do século XII, o seu imenso Comentário ao Cântico dos Cânticos, com noventa e seis sermões de uma fecundidade inesgotável, os seus tratados dogmáticos tão seguros sobre o Conhecimento de Deus e sobre A graça e o livre-arbítrio, as suas peças polêmicas tão mordazes, e o seu testamento espiritual, o De consideratione, do qual tiramos atrás a sua definição dos deveres dos Papas, são elementos extremamente diversos que nos dão a conhecer o orador e o escritor. Aliás, longe de desprezar a inteligência e as suas atividades, não dizia ele com bom humor: “Não convém que a Esposa do Verbo seja estúpida”?

 

Acontece, porém, que, na ordem das faculdades do conhecimento, São Bernardo deixava essas atividades da inteligência em segundo plano. Para ele, não era nem pela dialética nem pela ciência que se pode atingir o único objeto do conhecimento que merece ser atingido. Como o seu amigo Guilherme de Saint-Thierry, pensava que “o amor humilde de um coração puro vale mais do que a razão e as suas pesquisas sutis”. Antes de compreender e explicar o dogma, é preciso vivê-lo… Esta é a essência do seu tratado sobre o Conhecimento de Deus.

 

O princípio sobre o qual não transigia era, pois, o de que a fé vivida é superior a todo o esforço da inteligência, e foi para defendê-lo que entrou em conflito com Abelardo <1079-1142>. Evocaremos mais adiante este homem extraordinário, uma das figuras mais admiráveis do pensamento medieval. Mas do eremitério de Nogent-sur-Seine, onde vivia com alguns discípulos, partiam idéias que dificilmente se conciliavam com o princípio que acabamos de formular. Não que o grande filósofo fosse um ateu, um livre-pensador, pois nessa época palavras como essas careciam de significado. Tinha uma fé viva e falava de Cristo com uma ternura que o próprio São Bernardo não teria desaprovado. Mas esse homem sentia-se devorado pela paixão de pensar, como outros são devorados pelas paixões carnais. Dizia de si mesmo que não podia ficar impassível perante um problema: era preciso encontrar-lhe uma solução. Semelhante atitude, aplicada aos mistérios da fé, arriscava-se a provocar catástrofes. Se se tivesse prestado ouvidos a esse paladino da razão e do espírito crítico, que teria sobrado das afirmações claras do dogma, dos princípios da fé? Apenas alguns temas para discussões sutis, em que cada qual teria divagado a seu bel-prazer. Por uma evolução que seria mais tarde a do racionalismo, ter-se-ia chegado a suprimir qualquer distinção entre o que pertence à razão e o que a ultrapassa, entre o saber humano e a Revelação.

 

Basta sabermos que era esse o fim visado pelos ensinamentos de Abelardo – aliás, só mais ou menos conscientemente visado –, para compreendermos os motivos que levaram São Bernardo a combatê-lo. Um dia, o seu amigo Guilherme de Saint-Thierry remeteu-lhe a Teologia cristã de Abelardo, dizendo-lhe simplesmente: “O vosso silêncio é um perigo”. A princípio, o abade de Claraval tentou esquivar-se, argumentando que era muito pouco dialético para enfrentar o melhor esgrimista da dialética. Mas em 1140, no meio de um grupo de estudantes que a sua voz atraíra a Cister, encontrou um aluno de Abelardo e apercebeu-se da influência nefasta do filósofo. O seu primeiro passo foi procurar agir diretamente sobre o mestre, mas este, que estava no auge da fama, resistiu; cortando as varas com que iriam bater-lhe, exigiu a convocação de um concílio diante do qual defenderia as suas teses. O concílio teve lugar nesse mesmo ano de 1140, em Sens, e São Bernardo compareceu a ele.

 

Os dois adversários viriam a tomar atitudes bem diferentes. Um era intelectual, seguro de si, do seu pensamento e dos seus métodos dialéticos; pulverizaria o monge borgonhês em dois tempos. O outro era um espiritual, uma alma repleta de Deus, que não procurava a glória pessoal e só queria dar testemunho da Palavra. Abelardo via no concílio uma espécie de academia, diante da qual poderia entregar-se à esgrima das idéias; Bernardo considerava-o um tribunal que devia julgar um suspeito. Por isso, o cisterciense não permitiu que o seu adversário escolhesse o terreno e atacou-o impetuosamente desde o primeiro momento. Afirmou que precisamente os assuntos que Abelardo pretendia discutir não eram assuntos passíveis de discussão. A fé ou se aceita ou se recusa; o dogma é um bloco e não pode ser desmanchado ao gosto de cada um. Surpreendido por esse ataque, desconcertado, esmagado logo de entrada sob uma saraivada de citações extraídas da Escritura, identificado sucessivamente com Ário, Nestório e Pelágio, Abelardo sentiu que o terreno lhe fugia debaixo dos pés e vacilou.

 

Nesse duelo, o homem do seu tempo, o cristão medieval típico, era incontestavelmente São Bernardo. Representava a tendência característica da época, segundo a qual o passado é o elemento exemplar e decisivo em si, e a fé é o alfa e o ômega; já o seu adversário encarnava um movimento audaciosa e, talvez, temerariamente progressista. É verdade que as idéias de Abelardo viriam a desempenhar mais tarde um papel importante na evolução do pensamento cristão; mas, hic et nunc, constituíam um perigo para aquela sociedade cujo padrão era uma fé mais rígida. Há casos em que se pode ser culpado simplesmente por estar excessivamente adiantado em relação ao tempo.

 

Vencido, Abelardo tentou apelar do concílio para o Papa, mas não teve tempo de chegar a Roma. Adoeceu em Cluny e a condenação romana acabou de abatê-lo. Avisado do que se passava, São Bernardo correu imediatamente para junto do adversário, a fim de que não levasse para o túmulo a dor acerba dos golpes que recebera. Por intervenção de Pedro o Venerável, os dois homens trocaram o ósculo da paz. Pouco depois, transferido para o priorado de São Marcelo, junto de Châlon-sur-Saône, o antigo mestre do Quartier latin era surpreendido “pelo visitante angélico, na santa oração e no temor do Senhor”.

 

 

O HOMEM DE AÇÃO

 

Para dar a Cristo o seu pleno testemunho, São Bernardo saíra, pois, da sua cela e lançara-se na batalha dos homens. Ao proceder assim, pensava cumprir o seu dever. “Nunca me lamentarei”, escreveu ele, “de ter interrompido uma meditação repousada, se vir germinar numa alma a semente da Palavra”. Isto explica que esse contemplativo tenha sido paradoxalmente, desde 1127 até à sua morte, sempre por montes e vales, uma “avezinha desplumada, sempre exilada do seu ninho”, e que tenha desempenhado um papel de primeiro plano em todos os grandes acontecimentos da sua época.

 

Não é que sentisse qualquer prazer nisso, nem que procurasse ocasiões para figurar como vedete. Ao contrário, quando era chamado a intervir, resistia, hesitava, esperava, refletia e queria saber com detalhes por que tinham recorrido a ele. E se, por fim, aceitava, era para obedecer às ordens de um superior, por caridade para com os seus irmãos e para com a Igreja, ou por fidelidade à verdade e à justiça. Podia sentir-se despedaçado entre o seu ideal monástico e a ação obsessiva a que se lançava, mas sabia muito mais ao certo que, procedendo assim, era fiel àquilo que Deus esperava dele e que obedecia à sua vocação. São Bernardo não foi um homem de ação apesar de ser um místico, mas porque era um místico.

 

No jargão do nosso tempo, dir-se-ia que o grande abade foi um homem “engajado”, comprometido, no sentido de que assumiu riscos e enfrentou as mais perigosas barafundas. Mas esse “engajamento” que, para tantos, esconde por trás de uma agitação estéril o vazio da alma, para ele era conseqüência lógica desse outro compromisso, mais decisivo, que assumira quando, aos vinte e um anos, batera à porta de Cister. E se chegou a ser, como dizem, um “homem de Estado”, um homem político, toda a sua ação temporal se resumiu em fazer triunfar os princípios da verdade e da eqüidade.

 

Seria impossível enumerar todos os casos em que a intervenção de São Bernardo veio a ser decisiva. As ocasiões que teve de agir podiam ser grandes ou pequenas, mas, a partir do momento em que os princípios de Cristo eram violados, jamais pensava que estivesse perdendo o tempo. E, quando entrava em ação, era verdadeiramente o homem de Deus, livre de qualquer ressentimento, de qualquer preconceito pessoal <…>.

 

Dois grandes acontecimentos da época revelam até que ponto chegava o prestígio do santo. O primeiro foi o cisma de Anacleto, tristemente célebre. A forma como São Bernardo interveio é tão característica do seu estilo e tão reveladora da sua influência que vale a pena contar o episódio em pormenor.

 

O papa Honório II está à beira da morte. As famílias Pierleone e Frangipani agitam-se no seio do Sacro Colégio. Arrastam o moribundo até o mosteiro de São Gregório e expõem-no à multidão, que se agita. O papa expira na noite de 13 para 14 de fevereiro de 1130, e seis cardeais, que haviam permanecido no mosteiro, elegem Gregório de Sant´Angelo, partidário dos Frangipani, que toma o nome de Inocêncio II. Outros cardeais confirmam a escolha, mas o cardeal Pedro Pierleone, homem aliás notável e popular em Roma, denuncia imediatamente a rapidez do processo, agrupa os seus amigos e faz-se eleger sob o nome de Anacleto II. Os dois papas são sagrados em 23 de fevereiro, um em Santa Maria Novella e o outro em São Pedro. Mas, como político hábil que sabe distribuir ouro com arte consumada, Anacleto força o seu rival a deixar Roma e Inocêncio vai para a França.

 

A Cristandade está com duas cabeças. Canonicamente, o conflito é insolúvel, porque as duas eleições estão manchadas de irregularidades. Os países dividem-se conforme os seus interesses. Luís VI convoca um concílio para que delibere sobre os méritos dos dois pretendentes, e manda chamar o abade de Claraval. Bernardo hesita, mas uma visão divina convence-o a comparecer. Ei-lo, pois, árbitro da Igreja universal. Invoca argumentos de três espécies a favor de Inocêncio II: é moralmente mais digno; foi eleito pela parte “mais saudável” do Sacro Colégio, a maioria dos cardeais-bispos, aos quais o decreto de Nicolau II confere, desde 1059, um papel eminente na eleição do Pontífice; e foi sagrado pelo bispo de Óstia, segundo a tradição. O concílio aceita a sentença e Luís VI proclama a sua fidelidade a Inocêncio.

 

Mas de que serve essa decisão, se a Cristandade permanece dividida? Bernardo quer ligar os outros Estados cristãos a Inocêncio II. Encontra-se com o rei da Inglaterra, Henrique I Beauclerc, e vence as suas reticências. Na Alemanha, paralelamente, São Norberto, então arcebispo de Magdeburgo, traz Lotário <1070-1137, rei do Sacro Império Romano Germânico de 1125-1137> para a boa causa: o papa e o rei da Germânia encontram-se em Liège em março de 1131. O príncipe conduz o cavalo de Inocêncio e multiplica os sinais de reverência; será para melhor preparar o terreno das reivindicações de natureza demasiado política? Bernardo “opõe-se a isso como uma parede”, diz o seu biógrafo, e Lotário promete reconduzir o papa a Roma. Entretanto, Inocêncio passa por Claraval, onde partilha da humilde refeição dos monges. Em Reims, Bernardo está ao lado do papa quando Aragão e Castela lhe prestam adesão. Depois, intervém na Aquitânia, onde o duque Guilherme, arrastado pelo bispo Gerardo de Angoulême, reconhecera Anacleto. O seu sucesso, porém, é efêmero; Gerardo volta a estar por cima e obtém a sé de Bordeaux. Bernardo fustiga-o com dura ironia e convence os seus sufragâneos a excomungá-lo.

 

Entretanto, Inocêncio chega à Itália, onde Lotário enceta operações militares. Em janeiro de 1133, chama Bernardo para reconciliar Gênova e Pisa, cujo entendimento é indispensável para neutralizar Rogério II da Sicília que, desejoso de aumentar o seu poder, se declarara pragmaticamente partidário de Anacleto. O cisterciense torna-se diplomata; prepara a paz, e o povo de Gênova acolhe-o triunfalmente. Lotário, que se encontra a pouca distância de Roma, fica sem dinheiro, e Bernardo pede subsídios ao rei da Inglaterra e consegue-os. Por fim, em 30 de abril, Inocêncio entra na Cidade Eterna e, em 4 de julho, coroa Lotário. Bernardo volta a toda a pressa para o seu querido mosteiro, julgando ter concluído a sua tarefa.

 

Contudo, em setembro, privado do apoio do exército imperial e assediado pelos soldados de Anacleto, que ocupam o castelo de Sant´Angelo, Inocêncio tem que deixar Roma outra vez. Bernardo volta a entrar em cena e, ao chegar às terras de Guilherme da Aquitânia, diz-lhe: “Só existe uma Igreja: é a arca que contém a salvação do mundo; fora dela, por um justo juízo de Deus, tudo deve perecer, como nas horas do Dilúvio”. Depois de uma missa, a que teve de assistir fora da igreja, pois estava excomungado, Guilherme reconcilia-se com Inocêncio. É o fim do cisma na França.

 

Mas a situação continua grave porque o antipapa Anacleto acaba de coroar o normando Rogério II como rei da Sicília. Paralelamente, Lotário, em conflito com os Hohenstaufen, vê-se impossibilitado de empreender uma nova expedição ao sul dos Alpes. É preciso, portanto, regularizar os assuntos alemães e Bernardo corre para lá. Em princípios de 1135, atravessa o Reno e aparece em Bamberg, onde o imperador recebe a submissão dos seus inimigos. Depois, passando os Alpes em pleno inverno, desce à Itália, em direção a Pisa, onde Inocêncio II convocou um concílio para calcular os seus partidários. “São Bernardo”, diz um historiador da época, “foi a alma do concílio”.

 

Anacleto é excomungado e as terras de Rogério feridas de interdito. Delegados de Milão trazem a adesão da grande metrópole, contanto que seja confirmada a deposição do orgulhoso arcebispo Anselmo. O concílio concorda e manda Bernardo à Lombardia para prevenir qualquer incidente. À sua passagem, a multidão agita-se, todos querem vê-lo, ouvi-lo, tocá-lo e cortar um pedaço da sua túnica. Oferecem-lhe um arcebispado, mas ele recusa. Por caminhos de montanha, escoltado por pastores, regressa a Claraval.

 

Terminou tudo? Ainda não. Trabalhava no Cântico dos Cânticos, quando recebeu um novo apelo do papa e se dirigiu à Itália pela terceira vez. O exército de Lotário conquistara quase toda a Península, mas Anacleto ocupava firmemente certos bairros de Roma e Rogério era inexpugnável na Sicília. Surgem conflitos entre o papa e o imperador a propósito da Apúlia e do cargo de abade de Monte Cassino. Bernardo soluciona esses problemas e chega até a governar a famosa abadia por algum tempo. Depois, em outubro de 1137, como Lotário, decepcionado e doente, tivesse voltado para o Norte, Bernardo concorda em negociar diretamente com Rogério. Está também muito mal de saúde; ele próprio se compara ao “pálido espectro da morte”. No entanto, corre para Salerno, a fim de encontrar-se com o rei da Sicília e com Pedro de Pisa, o canonista, que apresenta a defesa de Anacleto. As exortações do santo em prol da unidade da Igreja não convencem o rei, mas comovem o canonista, que vem prostrar-se aos pés de Inocêncio.

 

Mas aproxima-se o fim. Lotário morre em 4 de dezembro e Anacleto em 25 de janeiro de 1138. Alguns obstinados, entre os quais o normando, fazem eleger um novo antipapa, Vítor IV. Este, porém, horroriza-se com o seu sacrilégio e, uma noite, foge do palácio, procura Bernardo e implora a clemência de Inocêncio II. Estava salvo, portanto, tudo aquilo que Bernardo defendera. Pouco lhe importava que Rogério II, vitorioso sobre o exército pontifício e tendo o papa à sua mercê, lhe extorquisse uma absolvição e o reconhecimento da sua coroa. Bernardo só teria desejado que o pontífice vencedor não abusasse do seu triunfo. Aconselhou moderação, mas não conseguiu impedir as represálias que atingiram os partidários de Anacleto e o próprio Pedro de Pisa. O seu último ato foi protestar com veemência, mas sem resultado.

 

Nessa luta de oito anos, em que esteve em jogo nada menos do que a unidade da Igreja, Bernardo foi o grande combatente e o verdadeiro vencedor. No entanto, no auge das honrarias e do triunfo, a que aspirava o interlocutor dos monarcas, a figura central de tantas assembléias? Única e exclusivamente à austera tranqüilidade da sua cela. “Volto a toda a pressa”, escreve ele ao prior de Claraval, “e levo uma recompensa: a vitória de Cristo e a paz da Igreja”.

 

Foi também a vitória de Cristo – e só ela – que Bernardo teve em vista em outra ocasião em que a sua ação se tornou decisiva: a segunda Cruzada. Não há quem não conheça a grandiosa cena: o monge de vestes brancas que, do terraço de Vézelay, fala a uma multidão entusiasmada na Páscoa de 1146, reacendendo a chama sagrada e lançando a Cristandade no segundo episódio da batalha pelo Santo Sepulcro.

 

Havia já quase meio século que, depois de tantos sofrimentos e à custa de tanto heroísmo, os barões de Godofredo de Bulhões tinham tomado Jerusalém. Mas, depois do triunfo de 14 de julho de 1099, tornara-se patente a fragilidade da conquista; o feudalismo levara para a Terra Santa os seus hábitos de indisciplina. No final de 1144, Zenghi, governador turco de Mossul, tendo-se tornado senhor de Alepo, tomava dos cristãos a cidade de Edessa, posição avançada que vigiava o caminho para a Mesopotâmia; e no ano seguinte, seu filho, Nur-ed-din, voltava a tomar Edessa, libertada por algum tempo, e chacinava todos os seus habitantes. A Cristandade ficou transtornada com os gritos de dor que lhe chegavam do Oriente.

 

O rei Luís VII sonhou então com uma grande iniciativa que o levasse à celebridade. Uma primeira assembléia reunida em Bourges mostrou-lhe, no entanto, que o entusiasmo da nobreza já não era como o do século anterior. Avaliavam-se agora muito melhor os riscos e sabia-se o que é que a aventura do Oriente representava em dinheiro e em sangue. Mas o que por vezes faltava a Luís VII em prudência, sobrava-lhe em coragem. Marcou um encontro com todos na colina de Vézelay e chamou São Bernardo.

 

O abade de Claraval era partidário da Cruzada, sem dúvida, e, como sempre, por razões profundas, de ordem espiritual. No entanto, era um homem demasiado ponderado para não adivinhar as dificuldades da empresa. Quis contar com uma ordem do papa. Eugênio III – o antigo monge de Claraval, que naquele momento enfrentava motins e intrigas romanas – demorou um certo tempo a decidir-se, mas depois assinou a bula e Bernardo entrou em ação. Pelos resultados, podemos imaginar o que foi o apelo do santo. As multidões, sacudidas até à alma, reclamaram a honra de alistar-se sem mais delongas. Faltou pano para as cruzes que cada um queria coser imediatamente nas próprias vestes, e Bernardo teve que distribuir pedaços da sua túnica entre os que o escutavam. Depois, prolongando a ação iniciada em Vézelay, começou a percorrer as províncias para mobilizar o exército.

 

Visitou a Borgonha, Lorena e Flandres. Mandou dizer ao conde da Bretanha: “Vamos, generoso soldado, cingi os vossos rins; não abandoneis o vosso rei, o rei dos francos. Que digo? Não abandoneis o Rei dos céus, pelo qual o rei dos francos empreende uma viagem tão laboriosa”.

 

Chegando às margens do Reno para conter os massacres anti-semitas, aproveitou a ocasião e convidou Conrado III e os alemães para a Cruzada. Em 27 de dezembro de 1146, conseguia que o soberano comandasse o corpo germânico e entregava-lhe solenemente o estandarte sagrado. Ao mesmo tempo, em Saint-Denis, Eugênio III entregava ao próprio Luís VII o bordão de peregrino.

 

Que esta segunda Cruzada foi organizada com uma leviandade espantosa e teve como resultado um fracasso é infelizmente a pura verdade. Mas São Bernardo não teve nada que ver com os erros cometidos por Luís VII e Conrado III. Sofreu muito com isso e, no De consideratione, sentiu a necessidade de justificar o seu comportamento, acrescentando que o insucesso não devia ser atribuído à Providência, mas aos erros dos cristãos. E concluiu com estas palavras admiráveis: “Recebo de bom grado os ataques da maledicência e os dardos envenenados da blasfêmia, para que não cheguem a Deus. Concordo em perder a honra, desde que não se toque na glória divina”. A prova de que o seu prestígio não foi atingido é que Suger, no momento em que a morte o surpreendeu, amadurecia o projeto de uma Cruzada de desforra, cujo comando efetivo queria confiar ao cisterciense. Nessa manifestação da Cristandade em ação, São Bernardo foi, como em tudo, um elemento motor, um homem decisivo.

 

A imensidão da sua atividade deixa-nos estupefactos, sobretudo se nos lembrarmos das condições em que viveu. As viagens, naquele tempo, estavam muito longe de ser seguras e cômodas. Podemos imaginar esse homem franzino, extenuado pelos jejuns, indo por etapas intermináveis de Paris à Sicília, de Roma a Flandres e do Languedoc ao Reno? É possível imaginá-lo atravessando os Alpes a cavalo, em pleno inverno? O seu estado de saúde era sempre precário. Dormia mal e tinha o estômago tão avariado que se via na necessidade de “reconfortá-lo sem cessar com um pouco de líquido, pois o seu organismo continuava a rejeitar inexoravelmente todos os sólidos”. Além disso, as mãos e os pés inchavam-lhe por menos que nada…

 

O ambiente moral em que desenvolveu a sua ação não foi mais fácil. Não nos esqueçamos de que este santo, em cuja presença as dificuldades pareciam esfumar-se, trabalhou no meio de uma humanidade em que imperavam a astúcia, a violência, a ambição de poder e o interesse, tal como nos nossos dias. Teve que vencer resistências e intrigas, mas de tudo saiu vencedor.

 

Tudo isto prova não somente a sua santidade, mas a sua genialidade. Ter até esse ponto o sentido dos homens e dos acontecimentos; ser capaz de levar a bom termo tantas tarefas diferentes; saber dirigir a imensa rede dos seus irmãos de hábito, de modo a estar sempre devidamente informado e a conseguir que se cumprissem as suas instruções; manter uma correspondência gigantesca com todas as figuras de proa na Cristandade do Ocidente, sem nunca deixar de ser o homem de pensamento, de oração e contemplação que conhecemos – eis o testemunho irrecusável de um valor único. “Não conseguiremos avaliar a sua grandeza”, diz Pascal, “observando apenas um dos extremos; é preciso olhar simultaneamente para os dois e abranger o que se contém entre eles”.

 

Parte da admiração que se deve ao guia recai sobre a sociedade que se deixou guiar. Uma vez que Bernardo era um homem sobrenatural, considerava-se normal acatarem-se as suas ordens em questões que, nos nossos dias, seriam ciosamente reservadas aos “especialistas”: política, diplomacia, a própria economia. E, porque era um santo, que não dispunha de outras armas além da sua palavra e podia ser detido à sua passagem pelo mais medíocre fidalgote, os seus ditames e vereditos eram acolhidos pelos soberanos mais altos. A sociedade dos nossos dias, que mais do que nunca considera a força como a ultima ratio, bem poderia refletir sobre esta lição.

 

 

Daniel-Rops (pseudônimo literário de Henri Petiot) nasceu em Épinal, em 1901, e faleceu em Chambéry, em 1965. Foi professor de História e diretor da revista Ecclesia (Paris), e tornou-se mundialmente famoso sobretudo pelas obras de historiografia que publicou: a coleção História Sagrada, que abrange os volumes O povo bíblico (1943), Jesus no seu tempo (1945) e os onze tomos desta História da Igreja de Cristo (1948-65). Também foi autor de diversos ensaios, obras de literatura infantil e romances históricos, entre os quais destacamos Morte, onde está a tua vitória? (1934) e A espada de fogo (1938). Foi eleito para a Academia Francesa em 1955.

 

Fonte: História da Igreja de Cristo, Vol. III: A Igreja das catedrais e das cruzadas

Tradução: Quadrante

Link: Clerus

Holy Ghost, Low

In: Música

17 ago 2016

Probablemente la obra de ficción que más me ha impactado en los últimos años ha sido la novela La carretera de Cormack McCarthy (Mondadori, Barcelona, 2007). La conversación de un padre y un hijo, varios años después de lo que parece un holocausto nuclear, arrastrando a lo largo de una carretera norteamericana un carrito de supermercado con sus últimos enseres. Ha desaparecido todo signo de vida; se dirigen hacia el sur en busca siempre de comida, a la vez que huyen de otros supervivientes que quieren matarlos y probablemente comérselos. De tarde en tarde se encuentran con escenas espeluznantes. En las primeras páginas, puede leerse este cruce de palabras entre padre e hijo:

-Ten presente que las cosas que te metes en la cabeza están ahí parasiempre -dijo.

-¿Algunas cosas las olvidas, no?

-Sí. Olvidas lo que quieres recordar y recuerdas lo que quieres olvidar.

Y en las páginas finales, cuando el padre está ya gravemente enfermo, reaparece de nuevo ese tema:

-Cógeme la mano -dijo-. No creo que debas ver esto.

-¿Porque lo que se te mete en la cabeza es para siempre?

-Sí.

-No pasa nada, papá.

-¿No pasa nada?

-Ya los tengo metidos.

-No quiero que mires.

-Seguirán estando ahí.

Cuando hace algún tiempo leí esas palabras me pareció que expresaban de forma lúcida el deterioro de la memoria y la imaginación personal y colectiva que está sufriendo la cultura audiovisual contemporánea y que afecta -me parece a mí- en buena medida a los creativos.

LITERATURA Y MORALIDAD

No soy agorero ni especialmente negativo o pesimista, pero es prácticamente unánime el reconocimiento de que la violencia más brutal, la sexualidad más explícita, la crueldad más despiadada o las más diversas formas de lo cutre y lo sórdido, ocupan buena parte del espacio público audiovisual, conformando el imaginario y las vidas de sus consumidores. Como escribía recientemente John D. Peters, «uno de los temas de nuestro tiempo es cómo la pornografía se ha tornado central» (mainstream). Sin embargo, no quiero referirme particularmente a la pornografía -que es un perverso negocio que ocupa profesionalmente a miles de personas y esclaviza a tantos millones de jóvenes y adultos, generando además enormes beneficios a muchos empresarios del sector-, porque hoy en día nadie considera que la pornografía sea arte. Baste quizá recordar lo que escribía el veterano crítico de Time, Richard Corliss, con ocasión del documental Inside Deep Throat: «Hay mucha pornografía por ahí afuera, pero nadie la llama arte» (Time, 29 de marzo de 2005).

El problema real se encuentra en la falta de imaginación, en la pobreza de recursos de tantos creativos que repiten machaconamente unos temas ya sobados, o que simplemente pretenden todavía hacer algo novedoso ridiculizando a la religión o asumiendo una desenfadada actitud de un descaro supuestamente transgresor. Sin embargo, no parece que los creativos bienintencionados, a pesar de sus esfuerzos, lo hagan realmente mucho mejor. Hay -me parece- un problema más radical que me gustaría expresar con una lúcida anotación de Simone Weil en La gravedad y la gracia (Trotta, Madrid, 1994):

«El mal imaginario es romántico, variado; el mal real, triste, monótono,desértico, tedioso. El bien imaginario es aburrido; el bien real es siempre nuevo, maravilloso, embriagante. Por lo tanto, la «literatura de imaginación» o es aburrida o es inmoral (o una mezcla de ambas). No escapa a esta alternativa como no sea que, a fuerza de arte, pase del lado de la realidad, cosa que sólo el genio puede hacer».

¡Qué profunda sabiduría encierran estas sencillas palabras! Este es para mí el problema central de la cultura audiovisual. A nuestra imaginación el bien parece aburrido y el mal atractivo, pero en la realidad el mal es terriblemente degradante y, por el contrario, el bien es del todo cautivador.

Me gustaría traer a colación una pintura del Juicio Universal atribuida a un imitador del Bosco que se encuentra en el Museo de Tudela. Muestra arriba un cielo estático con los doce apóstoles —que parecen aburridos— y debajo un mundo dinámico y atrayente. La imaginación del pintor se desborda en la representación de los pecados capitales, mientras que sólo se atreve a poner en el cielo unos ángeles con las trompetas del Juicio para entretener a los apóstoles.

greco

Lo curioso es que lo mismo nos pasa a nosotros, los espectadores: la escena inferior mundana nos resulta mucho más atractiva que la quietud celestial. Desde Dante hasta nuestros días muchos han advertido la pobreza de la imaginación artística para representar el cielo (“Ni ojo vio, ni oído oyó…”, 1 Cor 2, 9), que contrasta tanto con la vivacidad de los tormentos infernales. Hay muchas otras pinturas semejantes en las que las imágenes del bien resultan ñoñas y aburridas, mientras que las imágenes del mal atraen poderosamente nuestra atención. Se ha identificado incluso una pauta biológica para esta tendencia en pos de lo novedoso, de las emociones nuevas, de los “sabores fuertes” que explicaría esa atención privilegiada a lo extraordinario, a lo anormal o a lo desviado. Parece como si nuestra imaginación estuviera más inclinada o más a sus anchas en el reino del mal que en el del bien, tal como atestiguan las terribles pesadillas nocturnas que a tantos afectan.

El diagnóstico de Simone Weil sobre la literatura de ficción -que vale-también para la cinematografía- es severo, pues afirma una disyuntiva entre aburrimiento o inmoralidad, o incluso prevé una mezcla grosera de ambos elementos (como quizá ocurre en no pocos casos de los productos audiovisuales de la actualidad). Lo más interesante es quizá su afirmación final de que para superar esa lamentable alternativa lo que hace falta es que la ficción, la imaginación, a fuerza de arte, se pase del lado de la realidad y esto es algo que sólo los genios son capaces de hacer.

Nuestro tiempo necesita de esos genios -sin duda hay ya algunos- capaces de expresar con nuevas palabras, con nuevas imágenes, con nuevas metáforas, con nuevas ficciones, las verdades más profundas que experimentamos en la realidad de nuestras vidas. Genios que expresen esas verdades más hondas en forma de atractivas historias que cautiven nuestra imaginación y que sean capaces de llenar de emoción y de sentido las vidas de nuestros contemporáneos, tantas veces monótonas. Sólo así será posible restañar esa imaginación herida para regenerar el espacio de la cultura audiovisual contemporánea. Me parece que cuando Benedicto XVI afirma que «cuanto más logremos vivir en la belleza de la verdad, tanto más la fe podrá volver a ser creativa también en nuestro tiempo y a expresarse de forma artística convincente» (6 de agosto de 2008, Bolzano), está pensando en algo así.

IMAGINACIÓN, RAZÓN Y CREATIVIDAD

La imaginación es el corazón de nuestra razón. La imaginación es el motor de nuestra actividad cognoscitiva; toda la tradición filosófica ha sostenido que no podemos pensar sin imágenes, pues son las imágenes las que establecen el puente entre los datos de nuestra experiencia y la espontaneidad de la razón. La imaginación no es sólo indispensable para el pensamiento de tipo especulativo, sino que lo hace palpitar con las cuestiones más prácticas y con las más hondas aspiraciones vitales de los seres humanos. Además, es la imaginación la que permite que nos comprendamos unos a otros, haciendo posible que nos pongamos en el lugar de los otros y creando espacios compartidos: la imaginación hace posible que nuestros corazones latan al unísono.

Me parece que el eje central de las enseñanzas de Benedicto XVI -su ariete intelectual en el panorama a veces desolador de la cultura postmoderna- se encuentra en su reiterada afirmación de que es preciso ensanchar la razón humana para que en ella quepan el corazón, los sentimientos, la belleza y la bondad, «las fuerzas salvadoras de la fe, el discernimiento entre el bien y el mal» (Spes salvi, n. 23); para que en ella puedan encontrar cabida aquellos elementos más humanos que fueron desechados por el materialismo científico ilustrado de los dos últimos siglos. Este es también el núcleo del famoso discurso de Ratisbona (12 de septiembre de 2006):

«Este intento de crítica de la razón moderna desde su interior, expuesto sólo a grandes rasgos, no comporta de manera alguna la opinión de que hay que regresar al periodo anterior a la Ilustración, rechazando de plano las convicciones de la época moderna. [...] La intención no es retroceder o hacer una crítica negativa, sino ampliar nuestro concepto de razón y de su uso. [...] Sólo lo lo graremos si la razón y la fe se re encuentran de un modo nuevo, si superamos la limitación que la razón se impone a sí misma de reducirse a lo que se puede verificar con la experimentación, y le volvemos a abrir su horizonte en toda su amplitud [las cursivas son mías]».

Se trata de ensanchar la noción de conocimiento no sólo para que haya espacio para la fe, sino incluso también para que sea posible entender la propia actividad científica. Cien años atrás, el filósofo y científico norteamericano Charles S. Peirce (1839-1914) daba vueltas una y otra vez al impresionante fenómeno de la creatividad:

«¿No es de todas las cosas la más maravillosa que la mente sea capaz de crear una idea de la que no hay ningún prototipo en la naturaleza, nada con el menor parecido, y que por medio de esta completa ficción sea capaz de predecir los resultados de los experimentos futuros, y que por medio de ese poder haya transformado la faz de la tierra?(Collected Papers 7.686, 1903)».

La clave está en advertir que la creatividad científica -la creación de nuevas ideas- nunca está justificada deductivamente por los conocimientos precedentes. Se trata de lo que Peirce llamó abducción y es el proceso por el que se generan nuevas hipótesis en ciencia, pero también en la vida corriente y, por supuesto, en la actividad artística y literaria. Se trata del proceso inferencial por el que relacionamos de un modo nuevo elementos de los diversos ámbitos de nuestra experiencia. Tiene a menudo el carácter de una iluminación repentina: «Es la idea de unir lo que nunca antes habíamos soñado unir lo que hace brillar la nueva sugerencia ante nuestra contemplación» (Collected Papers 5.181, 1903). Como ha escrito Sara Barrena en La razón creativa (Rialp, Madrid, 2007), «el artista o el científico no está constreñido por sus ideas previas o por la realidad, sino que hay crecimiento real. Para Peirce se da en la mente humana auténtica creatividad; es posible crear una idea nueva, que suponga un salto respecto a todo lo anterior».

Reconocer la abducción supone admitir el entrelazamiento de la razón con aquellos elementos que el racionalismo había excluido, particularmente con la imaginación, con la facultad que hace que podamos salirnos de lo predeterminado y proseguir de modos nuevos. La imaginación está en la base de toda interpretación, juega un enorme papel en la formación de nuevos hábitos y es esencial para comprender la experiencia: «en ausencia de imaginación los fenómenos no pueden conectarse de manera racional» (Collected Papers1.46, c. 1896). Peirce llega a decir que todo el pensamiento tiene lugar en la imaginación (Collected Papers 3.160, 1880).

La razón es genuinamente humana cuando es creativa, cuando se sale de los supuestos, cuando organiza nuevas constelaciones de sentido para los datos de la experiencia. La articulación de experiencia y teoría se lleva a cabo en la imaginación, en la sensibilidad interna. Es precisamente esa sensibilidad interna la que está herida en nuestra cultura audiovisual contemporánea. La imaginación está en muchas personas cercenada o limitada empobrecedoramente por numerosas imágenes degradantes y obsesivas o por estereotipos cosificadores: basta pensar en la sistemática imagen objetualizadora de la mujer o en la violencia machista omnipresentes en las pantallas.

Las metáforas -como advirtieron certeramente Lakoff y Johnson- tienen un papel central en la configuración imaginativa de nuestra experiencia. Las metáforas destacan unos aspectos y ocultan otros. Son capaces de crear una nueva realidad: no son simplemente una cuestión de palabras, sino un medio para estructurar nuestro sistema conceptual, y por tanto, nuestras actitudes y nuestras acciones. Las palabras por sí solas no cambian la realidad, pero los cambios en nuestro sistema conceptual cambian lo que es real para nosotros y afectan a la forma en que percibimos el mundo y al modo en que actuamos en él, pues actuamos sobre la base de esas percepciones. Muchos cambios culturales nacen para bien o para mal de la introducción de nuevos conceptos metafóricos.

ALGUNAS CLAVES PARA POTENCIAR LA CREATIVIDAD

Querría apuntar finalmente algunas ideas que puedan ayudar a favorecer la creatividad. Son lugares comunes todos ellos, pero no recetas. Estoy persuadido de que, si los profesores universitarios educamos en esa dirección, saldrán de entre nuestros alumnos esos genios capaces de transformar creativamente el imaginario de nuestra sociedad.

Para escribir, lo primero es tener algo que decir y para ello es indispensable cultivar la propia vitalidad interior. Para cultivar la imaginación hay que leer a los grandes novelistas de los siglos XIX y XX. Un libro por semana, un libro siempre en el bolso o en la cartera. Algo parecido podrá decirse de las grandes películas del siglo pasado y de la actualidad.

Además, si es posible, hay que moverse, hay que viajar todo lo que se pueda, prestando atención a los lugares, a las personas, a las historias. Hay que escribir sólo de lo que uno sabe, de la propia experiencia vivida o imaginada. Como escribió Hemingway, «todo el éxito que he tenido ha sido gracias a escribir de lo que sé». Y añado otra anotación de Hemingway (On Writing, Scribner’s, Nueva York, 1984), «en el mundo lo más difícil de hacer es escribir prosa directa y honrada sobre los seres humanos. Primero tienes que conocer el tema; luego tienes que conocer cómo escribir. Ambas cosas llevan toda una vida para aprenderlas».

Por otra parte, es preciso desarrollar un «espíritu científico» que lleve a cuestionar habitualmente lo que nos viene dado, lo que se ha hecho o dicho hasta ahora, aquello que tendemos naturalmente a pensar. La primera regla de la razón -insiste Peirce una y otra vez- es que para aprender se ha de desear aprender, y por tanto no hay que estar satisfecho ni con lo que uno ya sabe ni con aquello a lo que se siente inclinado naturalmente a pensar (Collected Papers 1.135, 1899). La piedra de toque de la genuina actitud científica -y de toda actitud creativa- se encuentra efectivamente en el examen atento y decidido de las ideas preconcebidas, de los prejuicios culturales y personales, que tan a menudo dominan o pueden llegar a bloquear por completo la búsqueda creativa.

Los escritores de ficción han de querer transmitir algo mediante una historia. Si no hay ese algo no hay historia que contar. Después, «armar» una historia requiere mucho tiempo, horas, meses, años de maduración. «El novelista debe escribir con la cabeza como si escribiera con el corazón, pero jamás debe escribir con el corazón como si escribiera con la cabeza», afirma sabiamente Mercedes Salisachs en La palabra escrita (Ediciones B, Barcelona, 2003). «Las ideas -escribió Menéndez y Pelayo (Ensayos de crítica filosófica, Aldus, Santander, 1948)- son de todo el mundo, o más bien, no son de nadie: en el pensador más original se pueden ir contando uno por uno los hilos del telar ajeno que han ido entrando en la trama; la originalidad sólo en la forma reside». Casi todas las historias desde Homero, Sófocles y Esquilo hasta hoy son más o menos las mismas. En las últimas décadas la literatura occidental se ha enriquecido, sin duda, con numerosas aportaciones de otras tradiciones culturales, pero para el escritor de ficción la novedad, más que en la historia, reside en su personal forma de contarla, en las nuevas metáforas con las que cuenta de un modo nuevo esa misma historia.

La creatividad requiere búsqueda, esfuerzo por vivir, por pensar y expresarse con autenticidad. «Hay sólo un único medio -escribirá Rilke al joven poeta (Alianza, Madrid,1980)-. Entre en usted. Examine ese fundamento que usted llama escribir [...] Excave en sí mismo, en busca de una respuesta profunda». La fuente de la originalidad es siempre la autenticidad del propio vivir. Es preciso volcar la imaginación para descubrir cómo la vida cotidiana puede dejar de ser monótona y aburrida hasta convertirse en una apasionante aventura; descubrir la novedad, la alegría y la belleza de lo cotidiano. De manera un tanto lapidaria podría quizás afirmarse, «donde hay aburrimiento, no hay amor», y la inversa vale también: donde hay amor no hay aburrimiento, sino alegría, optimismo y buen humor.

CONCLUSIÓN

De todos modos, la cuestión acerca de cómo abordar el mal en las producciones audiovisuales sigue abierta. Por una parte, una buena pista es-me parece- contraponer el mal siempre al bien, pues los seres humanos necesitamos distinguir entre ambos, incluso dentro de nosotros mismos. Por otra parte, vale la pena mostrar también siempre aquel contraste -tan certeramente detectado por Simone Weil- entre el atractivo del mal imaginario y la realidad terrible e inhumana del mal real, a la vez que intentamos crear nuevas maneras divertidas, atractivas, cautivadoras, para presentar el bien real -que tan importante es en nuestras vidas- a la imaginación de los espectadores y lectores.

No es tarea fácil. Como dejó anotado Jiménez Lozano en su La luz de una candela (Anthropos, Barcelona, 1996), «Maurice Blanchot, glosando a Kafka, dice que escribir es una forma de oración. Y lo es. O, si no, es cacareo».

Fonte: Nueva Revista, December 2009 – Nueva Revista número 126

 

"A religião não era o ópio e sim a poesia da humanidade".

(Harold Bloom sobre Flannery O'Connor).

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