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Com a crise da Igreja, muitas paróquias se parecem e quase todas são devoradas pelo espírito da irreverência. Atualmente, muitas delas se tornaram um modelo reduzido do mundo moderno. Isso nos faz pensar que todas são assim. Mas não são. A crise é ampla, mas não afeta a Igreja inteira. Há muitas paróquias que ainda manifestam perfeitamente a universalidade da Igreja. Paróquias com gente piedosa, recolhida. A tradição da Igreja afirma reiteradamente a relação entre Eucaristia e vida paroquial: “Seguindo o exemplo da primeira comunidade cristã (cf. At 2,46-47), a comunidade paroquial se reúne para partir o pão da Palavra e da Eucaristia e perseverar na vida sacramental e na prática da caridade.” Quem leu a obra de Georges Bernanos, sabe bem que a Igreja, aos seus olhos, está nas pequenas paróquias: a paróquia, surge-nos como um microcosmo, atrás dela está toda a Igreja, toda a cristandade, toda a história bimilenar do cristianismo. Bernanos, que se entendia mais com os camponeses do que com os intelectuais, sabia que, antes da universalidade de certos problemas, está a universalidade da Igreja. Do fundo de uma pequena paróquia, seu vigário de aldeia distinguia com nitidez os movimentos universais, conhecia as paixões e os e os sentimentos dos seres humanos. De Barbacena, o olhar paroquiano de Bernanos alcançava a Europa e a sua palavra se dirigia à Inglaterra. É por isso que não existe alma mais universal do que uma alma verdadeiramente paroquiana. Embora tal afirmação possa escandalizar alguns leitores, é a mais pura verdade.

Imagem: O Pároco de Aldeia (imagem do filme de Robert Bresson, baseado no livro de Georges Bernanos, “Diário de um pároco de aldeia”.)

 

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Ontem, com muita razão, o padre Schall, no seu artigo “On Being Roman Catholic”, chamou, de maneira implícita, a atenção para o artificialismo das chamadas “leituras puras, desinteressadas, meramente estéticas”. Leitura pura é a passividade absoluta em face do autor e da obra. Uma passividade, portanto, de morte. Não é verdadeiramente possível. O ato mental mais difícil de todos, dizia Max Scheler, é escapar de uma visão de mundo enraizada e que prevalece: “Concepção do mundo é a única concepção que cada homem tem sempre e necessariamente, queira ou não, saiba ou não com clareza”. Mesmo que a pessoa não se dê conta, ela está lá. E para um católico, não há nada mais objetivo do que ver as coisas desde o ponto de vista cristão. Atento para a armadilha esteticista, George Weigel escreveu estas linhas: “embora o catolicismo seja um corpo de doutrina e um modo de vida, é também uma ótica, um modo de ver as coisas, uma percepção específica da realidade. A verdadeira “diferença católica”, no fundo, diz ele, é uma maneira de ver o mundo.” Neste mesmo sentido, Max Scheler advertia a Romano Guardini: “O senhor devia fazer aquilo que diz o termo Weltanschauung, quer dizer, considerar o mundo, as coisas, o homem, as obras, mas fazer tudo isso como um cristão. [...] Examine, por exemplo, os romances de Dostoievski e tome posição diante deles a partir do seu ponto de vista cristão”, justamente porque é a visão cristã que ilumina a dramática arena do mundo, em que se jogam a criação, o pecado, a redenção e a santificação. O modo de ver católico, esse “hábito de ser”, como diria Flannery O´Connor, é o que nos permite ver as coisas na sua verdadeira dimensão. Ver as coisas na sua justa perspectiva faz parte do que significa ser católico. O resto é bobagem. Bobagem esteticista.

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  1. Quadro histórico e geográfico da narração

“Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos (astrólogos) vindos do Oriente. E perguntaram: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,1-2).

Os paralelismos de Augusto voltam a aparecer em Herodes: ele que reina graças a protecção do governador e faz isso com pretensão messiânica. A profecia de Balaão, um vidente pagão, que encontramos em Nm 24,17: “Eu vejo, mas não para já; contemplo-o, mas ainda não próximo: uma estrela surge de Jacob e um ceptro se ergue de Israel”, poderia estar a circular fora do judaísmo e poderia ser objecto de reflexão para as pessoas num caminho de busca.

  1. Quem eram os magos?

Eram membros de uma casta sacerdotal persa (dirigentes de uma religião, com ideias religiosas fortemente influenciadas pelo pensamento filosófico); detentores e profissionais de um saber e de um poder sobrenaturais (feiticeiro, sedutor). Os magos que Mt 2 apresenta embora não pertencessem exactamente a classe sacerdotal persa, eram portadores de um conhecimento religioso e filosófico que se desenvolvera e se achava ainda presente naqueles ambientes. Mas que género de homens eles eram? Provavelmente não eram apenas astrónomos, mas homens de uma certa inquietação interior, homens de esperança, à procura da verdadeira Estrela da salvação; eles eram sábios que iam pata além de si mesmo a busca de Deus. Eles representam o caminho das religiões para Cristo, bem como a auto-superação da ciência rumo a Ele: o movimento das religiões e da razão humana ao encontro de Cristo. Eles representam o encaminhamento da humanidade para Cristo, inauguram uma procissão que percorre a história inteira.

  1. A estrela

Várias são as teorias sobre a estrela de Belém, sendo que uma apontam para a estrela como um fenómeno astronómico e outros (como é o caso de Crisóstomo) diz que não se tratava duma estrela comum, mas um poder invisível que adoptara tal fisionomia. Ora, a grande conjunção de Júpiter e Saturno (o fenómeno da estrela muito brilhante) no signo zodiacal de Peixes nos anos 7-6 a.C (ano provável do nascimento de Cristo) parece ser um facto confirmado.

A linguagem da criação suscita no homem a intuição do Criador, suscita a esperança de que um dia esse Deus se manifestará e suscita a consciência que o homem deverá ir ao encontro d’Ele. Na verdade a estrela conduziu os magos até a Judeia mas só pelas Sagradas Escrituras de Israel (Mt 2,6; Mq 5,1; 2 Sm 5,2) é que eles encontraram a estrada para o verdadeiro herdeiro de David. Um dos Padres (Gregório Nazianzeno) diz que no momento em que os magos se prostraram diante de Jesus, terá chegado o fim da astrologia. Nesta ordem de ideia percebe-se que não é a estrela que determina o destino do menino, mas o menino que guia a estrela.

  1. Paragem intermédia em Jerusalém

Os magos procuram pelo “rei dos judeus”, uma linguagem não judaica porque o comum era “rei de Israel”; “rei dos judeus” volta a aparecer no processo de Jesus e na inscrição da Cruz, usada em ambos casos por um pagão, Pilatos (cf. Mc 15,9; Jo 19,19-22), o que significa que no momento em que os primeiros pagãos perguntam por Jesus já transparece o mistério da cruz, indivisivelmente ligado à realeza de Jesus. Ouvido isso Herodes e toda Jerusalém ficaram perturbados, pois aquilo que na grande perspectiva da fé é uma estrela de esperança, na perspectiva da vida quotidiana constitui, inicialmente, apenas causa de transtorno, motivo de preocupação e temor. É que Deus perturba a nossa comodidade diária.

  1. A adoração dos magos diante de Jesus

A estrela que os magos seguiam desapareceu em Jerusalém, só depois do encontro dos magos com a Palavra da Escritura, a estrela resplandece de novo para eles. A criação, interpretada pela Escritura, volta a falar ao homem. Ao ver a estrela sentiram fortemente uma grandíssima alegria (Mt 2,10). É a alegria do homem que é atingido no coração pela luz de Deus e pode ver realizada a sua esperança: a alegria daquele que encontrou e foi encontrado. Os magos prostram-se diante d’Ele; esta é a homenagem que se presta a um Rei-Deus; e oferecem presentes: em Is 60,6 o ouro e incenso são presentes que hão-de ser oferecidos pelos povos ao Deus de Israel. O ouro mostra a realeza, o incenso aponta para sua filiação divina, e a mirra para o mistério da sua Paixão (em Jo 19,39 diz-se que Nicodemos trouxe mirra para ungir o corpo de Jesus), assim o mistério da cruz ligado a realeza prenuncia-se já na adoração pagã.

(Resumo do Capítulo IV de “Jesus de Nazaré: a infância de Jesus”)

Fonte: Carlos Evaristo José

Imagem: Adoração dos magos (Gaspare Diziani)

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O Maravilhamento de um Encontro

 

A meditação desta manhã terminava com a frase icástica de Kafka: “Existe um ponto de chegada, mas não há nenhum caminho”. É inegável: há um desconhecido (os geógrafos antigos traçavam quase uma analogia deste desconhecido com a famosa “terra desconhecida” com que terminavam seus grandes mapas; nas margens do mapa assinalavam: “terra desconhecida”). Às margens da realidade que o olho abraça, que o coração sente, que a mente imagina, há um desconhecido. Todos o sentem. Todos sempre o sentiram. Em todos os tempos, os homens o sentiram tanto que até o imaginaram. Em todos os tempos, os homens procuraram, através das suas elocubrações ou das suas fantasias, imaginar, fixar o rosto deste desconhecido. (…)

 

O que Kafka diz (“não há nenhum caminho”) não é verdade historicamente. É verdade, paradoxalmente, poderíamos dizer, teoricamente, mas não é verdade historicamente. Não se pode conhecer o mistério! Isto é verdade teoricamente. Mas se o mistério bate à sua porta… “Se alguém me abrir a porta, entrarei em sua casa e irei jantar com ele” (Ap 3, 20): são palavras que lemos na Bíblia, palavras de Deus na Bíblia. Mas é um fato que aconteceu.

E o primeiro capítulo de São João, que é a primeira página literária a falar disto, fora do anúncio geral: “O Verbo se fez carne” – aquilo de que toda a realidade é feita se fez homem –, contém a memória daqueles que seguiram imediatamente, que resistiram à solicitação que lhes era feita por parte dos engenheiros, dos arquitetos. Em uma folha, algum deles anotou as primeiras impressões e os traços do primeiro momento em que o fato aconteceu. O primeiro capítulo de São João, de fato, possui uma seqüência de notas que são realmente notas de memória. Um dos dois, quando velho, lê na sua memória as anotações que ficaram, pois a memória tem uma sua lei. A memória não tem como lei uma continuidade sem espaços, como acontece por exemplo em uma criação fantástica, da imaginação; a memória literalmente “toma notas”, como nós fazemos agora: uma anotação, uma linha, um ponto, e este ponto representa tantas coisas, de tal forma que a segunda frase começa depois das tantas coisas supostas pelo primeiro ponto. As coisas são mais supostas que ditas, algumas só são ditas como pontos de referência. Por isso, eu, com os meus 70 anos de idade, releio estas coisas pela milésima vez, e sem nenhum sintoma de cansaço. Desafio vocês a imaginarem uma coisa em si mais grave, mais pesada, no sentido de pondus, maior, mais carregada de desafio para a existência do homem na sua fragilidade aparente, mais cheia de conseqüências na história, do que esta, do que este fato.

 

“Naquele dia, João estava ainda lá com dois discípulos. Fixando seu olhar em Jesus, que passava, disse…”. Imaginem a cena, então. Depois de 150 anos de espera, finalmente o povo hebraico, que sempre, ao longo de toda a sua história, durante dois milênios, tinha tido algum profeta, algum profeta reconhecido por todos, depois de 150 anos finalmente o povo hebraico teve de novo um profeta: chamava-se João Batista. Outros escritos da Antigüidade também falam dele, está documentado historicamente, portanto. Todas as pessoas – ricos e pobres, publicanos e fariseus, amigos e adversários – iam ouvi-lo e ver a maneira como vivia, do outro lado do Jordão, em terra deserta, terra de gafanhotos e ervas silvestres. Ele tinha sempre um grupo de pessoas à sua volta. Entre estas pessoas naquele dia havia também dois que estavam indo pela primeira vez e vinham, digamos, do campo – mas eles vinham do lago, que era bem distante e estava fora do círculo das cidades mais desenvolvidas. Estavam lá como dois “caipiras” que pela primeira vez vêm à cidade, deslocados, olhando com os olhos arregalados para tudo o que estava à sua volta e sobretudo para ele. Ficavam lá com a boca aberta e os olhos arregalados a olhar para ele, a ouvi-lo, atentíssimos. De repente, uma pessoa do grupo, um homem jovem, vai embora, toma o caminho ao longo do rio para ir para o norte. E João Batista, inesperadamente, olhando fixamente para ele, grita: “Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado do mundo!”. Mas as pessoas não se moveram, estavam acostumadas a ouvir o profeta de quando em quando exprimir-se com frases estranhas, incompreensíveis, sem nexo, fora de contexto; por isso, a maior parte dos presentes não fez caso daquilo. Os dois que vinham pela primeira vez, que ficavam lá escutando João Batista atentamente, olhando para os seus olhos, seguindo os seus olhos para onde quer que girasse o seu olhar, viram que mirava aquele indivíduo que ia embora, e puseram-se a seguir este indivíduo. Seguiram-no permanecendo à distância, por temor, por vergonha, mas estranhamente, profundamente, obscura e sugestivamente curiosos. “Aqueles dois discípulos, ouvindo-o falar assim, seguiram a Jesus. Jesus se voltou e vendo que o seguiam disse: ‘O que buscais?’. Responderam-lhe: ‘Rabi, onde moras?’. Ele lhes disse: ‘Vinde e vede’”. Esta é a fórmula, a fórmula cristã.

 

O método cristão é este: “Vinde e vede”. “E foram, e viram onde morava, e ficaram com ele todo o dia. Eram cerca de quatro da tarde”. Não se especifica quando partiram, quando foram atrás dele; todo o trecho, também o seguinte, é composto de notas, como eu dizia antes: as frases acabam em um ponto que dá por óbvio que se saibam já muitas coisas. Por exemplo: “Eram cerca de quatro da tarde”; mas quando é que foram embora, quando é que foram lá, quem o sabe? De qualquer forma, eram quatro da tarde. Um dos dois que tinham ouvido as palavras de João Batista e haviam seguido aquele homem se chamava André, era o irmão de Simão Pedro. Ele encontrou em primeiro lugar seu irmão Simão… Deixaram Jesus, e o primeiro que André encontra é o irmão Simão, que voltava da praia, voltava ou da pescaria ou de consertar as redes necessárias para o pescador, e lhe diz: “Encontramos o Messias”. Não narra nada, não cita nada, não documenta nada, é sabido, é claro, são notas de coisas que todos sabem! Poucas páginas podem ser lidas que sejam verídicas de maneira tão realista, verídicas de maneira tão simples, onde nenhuma palavra é acrescentada à pura recordação.

 

Como pôde dizer: “Encontramos o Messias”? Jesus, falando com eles, terá dito esta palavra, que estava no vocabulário deles; porque, dizer que aquele era o Messias, “como quatro e quatro são oito”, com tanta certeza, teria sido impossível. Mas se vê que, ficando lá horas a escutar aquele homem, vendo-o, olhando-o falar – quem é que falava deste modo? Quem alguma vez já havia falado deste modo? Quem já havia dito estas coisas? Nunca foram ouvidas! Nunca fora visto alguém assim! –, lentamente, dentro do espírito deles, ia abrindo caminho a expressão: “Se eu não acredito neste homem, não acredito em mais ninguém, nem nos meus olhos”. Não que tenham dito isto, não que tenham pensado assim, sentiram isto, não pensaram. Aquele homem terá, portanto, dito, entre outras coisas, que era ele aquele que tinha de vir, o Messias que tinha de vir. Mas fora tão óbvio na excepcionalidade do anúncio (da afirmação), que eles o carregaram consigo como se fosse uma coisa simples – era uma coisa simples! –, como se fosse uma coisa fácil de compreender.

 

“E André o conduziu a Jesus. Jesus, fitando o olhar sobre ele, disse: ‘Tu és Simão, o filho de João. Chamar-te-ás Cefas, que quer dizer pedra’”. Os judeus tinham o costume de mudar o nome, ou para indicar o caráter de alguém, ou então por algum fato que acontecia. Portanto, imaginem Simão, que vai com o irmão, cheio de curiosidade e um pouco de temor, e que olha fixamente para o homem a quem o irmão o conduz. Aquele homem o está fixando de longe. Pensem na maneira como o fixava, a ponto de compreender o seu caráter até a medula dos ossos: “Chamar-te-ás pedra”. Pensem em uma pessoa que se sente olhada assim por alguém que nunca viu, absolutamente estranho, que se sente entendida assim no profundo de si. “No dia seguinte, Jesus tinha estabelecido que partiria para a Galiléia…”. É meia página feita deste modo, feita destes breves acenos e destes pontos em que tudo o que aconteceu era tratado como se fosse óbvio que todos o soubessem, que fosse evidente para todos.

 

“Existe um ponto de chegada, mas não há nenhum caminho”. Não! Um homem que disse: “Eu sou o caminho” é um fato histórico que aconteceu, cuja primeira descrição está dentro desta meia página que eu comecei a ler. E cada um de nós sabe que aconteceu. Nada aconteceu no mundo tão impensado e excepcional como aquele homem de que estamos falando: Jesus de Nazaré.

 

Mas para aqueles dois, os dois primeiros, João e André – André, muito provavelmente, era casado, tinha filhos –, como foi possível que fossem convencidos tão imediatamente e que o reconhecessem (não há uma outra palavra que possa ser dita diferente de reconhecê-lo)? Direi que, se este fato aconteceu, reconhecer aquele homem, quem era aquele homem, não quem era no fundo e minuciosamente, mas reconhecer que aquele homem era algo de excepcional, de incomum – era absolutamente incomum –, irredutível a qualquer análise, reconhecer isto devia ser fácil. Se Deus se tornasse homem, viesse até nós, se viesse agora, se tivesse penetrado na nossa multidão, se estivesse aqui entre nós, reconhecê-lo, a priori eu digo, deveria ser fácil: fácil reconhecê-lo no seu valor divino. Por que é fácil reconhecê-lo? Por causa de uma excepcionalidade, por causa de uma excepcionalidade incomparável. Eu tenho na minha frente uma excepcionalidade, um homem excepcional, sem comparações. Que quer dizer excepcional? Que quererá dizer? Por que o excepcional toca você? Por que você sente “excepcional” uma coisa excepcional? Porque corresponde às expectativas do seu coração, por quanto confusas e nebulosas possam ser. Corresponde de repente – de repente! –, corresponde às exigências da sua alma, do seu coração, às exigências irresistíveis, inegáveis do seu coração, como você jamais poderia imaginar, prever, porque não há ninguém como aquele homem. Ou seja, o excepcional é, paradoxalmente, o aparecimento daquilo que é mais natural para nós. O que é natural para mim? Que aquilo que eu desejo aconteça. Mais natural do que isto!

 

(…) Mas imaginem aqueles dois que ficam a ouvi-lo durante algumas horas e que depois têm de ir para casa. Ele se despede deles e eles voltam calados, calados porque invadidos pela impressão que tiveram do mistério que sentiram, pressentiram, ouviram, e depois se separam. Cada um dos dois vai para a sua casa. Não se cumprimentam, não porque não se cumprimentem, mas se cumprimentam de um outro modo, cumprimentam-se sem se cumprimentar, porque estão repletos da mesma coisa, são uma só coisa aqueles dois, de tanto que estão repletos da mesma coisa. E André entra em sua casa e tira o manto, e a esposa lhe diz: “Mas, André, o que você tem? Está diferente, que lhe aconteceu?”. Imaginem a ele que rompesse em choro abraçando-a, e ela que, perturbada com isto, continuasse a lhe perguntar: “Mas o que você tem?”. E ele a abraçar a sua esposa, que nunca se sentiu abraçada assim em sua vida: era um outro. Era um outro! Era ele, mas era um outro. Se lhe tivessem perguntado: “Quem é você?”, teria dito: “Compreendo que me tornei um outro… depois de ter ouvido aquele indivíduo, aquele homem, eu me tornei um outro”. Rapazes, isto, sem ter de fantasiar demais, aconteceu.

 

Não apenas é fácil reconhecê-lo, foi fácil reconhecê-lo na sua excepcionalidade – porque “se não acredito neste homem não acredito mais nem nos meus olhos” –, mas foi fácil também compreender que tipo de moralidade, isto é, que tipo de relacionamento dele nascesse; porque a moralidade é a relação com a realidade enquanto criada pelo mistério, é a relação justa, ordenada com a realidade. Foi fácil, foi fácil para eles compreender como era fácil o relacionamento com ele, o segui-lo, o ser coerentes com ele, o ser coerentes com a sua presença – coerentes com a sua presença.

 

* Texto extraído de “Il tempo e il tempio”, Ed. Bur, Milão 1995, pp. 39-49; também in Litterae Communionis jan-fev 1995, pp. XVIII – XXIII

 

 

Fonte: Passos N.59, Março 2005

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«Queremos evidenciar que existe uma oposição, fundamental e radical, entre o guenonismo e o catolicismo, e que tal oposição não é apenas de idéias mas de inspirações. Guénon não é só um filósofo ou pensador de idéias heterodoxas, como afirmara com razão a maioria dos contestadores católicos. O problema é muito mais grave e sério: na verdade, ele é um autor espiritual que propõe uma espiritualidade pretensamente superior à espiritualidade da Igreja Católica. Aos leitores expõe muito mais do que considerações algo estranhas: sugere o recebimento da iniciação que lhes outorgará uma influência espiritual capaz de impeli-los para muito além da mera “salvação” cristã: a iniciação alçá-los-ia até à “realização espiritual”, à identificação suprema com o absoluto indiferenciado.» (Antoine Motreff [Pe. Pierre-Marie, superior dos dominicanos de Avrillé], Qui a inspiré René Guénon?)

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Ainda sobre o problema da compatibilidade entre as idéias de Guénon e o catolicismo: enquanto que para um um católico, o homem ocupa um lugar único na criação (CIC §355) e é mais precioso aos olhos de Deus do que a criação inteira, para o guenonismo, o ser humano é apenas uma manifestação transitória e contingente do “ser verdadeiro”. Mircea Eliade explica: “Guénon negava a condição privilegiada da personalidade humana. Podemos citar literalmente sua afirmação de que o homem representa apenas uma manifestação transitória e contingente do ser verdadeiro… A individualidade humana… não deve ter uma posição privilegiada, “fora de série”, na hierarquia indefinida dos estados do ser total; o homem ocupa nela uma posição que não é mais importante que a dos outros estados.” (Mircea Eliade, Ocultismo, bruxaria e correntes culturais)

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Guenón não admitia o caráter exclusivista e universalista da Revelação cristã, cujo fundamento é Cristo, único Salvador e Redentor. Para ele, o cristianismo não podia deter, de maneira solitária, um caráter sobrenatural e transcendente: «a afirmação de que o cristianismo possui o monopólio do sobrenatural e é o único a ter um caráter transcendente, e que por consequência, todas as outras tradições são puramente humanas, [...] dito de outro modo, que o cristianismo é uma expressão da Sabedoria divina; [...] nenhum entendimento é realmente possível, com que possua esta pretensão de possuir, com exclusão de todas as demais formas tradicionais, o monopólio da revelação e do sobrenatural.» (R. Guénon, Estudios sobre el Hinduismo).

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O caminho iniciático e a ação do demônio:

«A iniciação, proporciona um “ambiente” favorável a atividade do demônio.» (Antoine Motreff [Pe. Pierre-Marie, superior dos dominicanos de Avrillé], Qui a inspiré René Guénon?)

«A análise que René Guenón faz da iniciação é, em parte, exata; a iniciação pode muito bem “conferir uma influência espiritual de origem não-humana”, pois constitui um pacto (ao menos implícito) com o demônio. Esta influência se exerce sobre a imaginação…Há, pois, uma espécie de iluminação demoníaca…que pode permitir ao iniciado conhecer certas coisas, que não poderia conhecer naturalmente. Todavia, este conhecimento terá por efeito distanciar-se de Deus, de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Sua Igreja. Desde o ponto de vista moral, tal iniciação constitui um pecado mortal contra a virtude de religião.» (Antoine Motreff [Pe. Pierre-Marie, superior dos dominicanos de Avrillé], Qui a inspiré René Guénon?)

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Finalizando:

René Guenón ainda julgava os sacramentos da Igreja inferiores aos chamados “ritos iniciáticos”. Em Aperçus sur l’initiation (1946), ele faz distinção entre “ritos religiosos” e “ritos iniciáticos”. Na sequência, afirma que a denominação «sacramento» pertence a categoria de ritos religiosos, que segundo ele, são apenas ritos de «agregação», incluindo o rito eucarístico da comunhão. Ora, este sacramento contém a plenitude da divindade de Jesus Cristo. Como poderia qualquer outro rito suplantar a este, e como poderia conferir algo “mais elevado” que o Corpo e o Sangue do Deus Encarnado? A ideia de que possa existir um rito mais sacrossanto e capaz de conferir maior e mais graça que a Eucaristia, aparece como “ridícula” aos olhos de qualquer católico que ainda não perdeu a fé.

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Todas as citações foram e comentários foram selecionados e elaborados pelo professor Daniel Fernandes.

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“O mundo antigo, o mundo doloroso, o mundo anterior à Graça embalou por muito tempo em seu coração desolado – por séculos e séculos – a espera obscura e incompreensível de uma ‘Virgo Genetrix’. Mas repare, Maria não teve triunfo nem milagres. Seu Filho não permitiu que a glória humana a tocasse, ainda que com a mais tênue extremidade de sua grande asa selvagem. Ninguém viveu, sofreu e morreu tão simplesmente, e numa ignorância tão profunda de sua própria dignidade, de uma dignidade que no entanto a coloca acima dos anjos. Pois afinal ela havia nascido sem pecado, que espantosa solidão! Uma fonte tão pura, tão límpida que nem ela podia ver a própria imagem refletida, feita apenas para a alegria do Pai – ah, solidão sagrada! Os antigos demônios familiares do homem, senhores e servidores reunidos, os terríveis patriarcas que guiaram os primeiros passos de Adão à soleira do mundo maldito, a astúcia e o orgulho, olharam de longe essa criatura miraculosa colocada fora de seu alcance, invulnerável e desarmada.”

(Diário de um Pároco de Aldeia)

Opinião de Santo Tomás de Aquino (citando Santo Agostinho).

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Enaltecer astrologia, no sentido de buscar o “juízo” dos astros sobre o agir e o futuro das pessoas, como algo lícito e compatível com a fé cristã é inteiramente contrário ao que diz a Sagrada Escritura e o grande “Doutor Comum”, Santo Tomás de Aquino. Há quem afirme que este praticava astrologia (o que, pelo uso do termo, só pode ser entendido pela audiência de hoje no sentido acima). Um absurdo sem tamanho, porque o que ele faz é eximir de pecado o estudo dos astros e seus efeitos físicos sobre o mundo (o que seria mais uma astronomia, em termos atuais). Ocorre que há pessoas na internet se passando por profundos conhecedores de teologia e tomismo que nem sequer conhecem o catálogo das obras de Santo Tomás. Se conhecessem, antes de afirmar bobagem, leriam seu opúsculo autêntico “De iudiciis astrorum ad fratrem Reginaldum socium suum carissimum” (datável entre 1269-72). É um texto bem pequeno, de modo que coloco aqui uma tradução minha, com a intenção de alertar para o perigo de utilizar o termo astrologia como algo compatível com a fé cristã, sem fazer as devidas ressalvas ao termo medieval, e ainda envolver Santo Tomás, o que é uma calúnia insuportável.

(Félix Ferrà)

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DE IUDICIIS ASTRORUM AD FRATREM REGINALDUM SOCIUM SUUM CARISSIMUM (tradução do texto leonino 1976):

Os juízos dos astros. Como me pedistes para te escrever sobre se era permitido recorrer ao juízo dos astros, dado que gostaria de satisfazer ao teu pedido, cuidei em escrever o que foi escrito sobre isso pelos santos doutores.

Primeiro, é preciso que saibas que o poder dos corpos celestes é capaz de modificar os corpos inferiores. Disse a esse respeito Agostinho, Cidade de Deus, V: “podemos sustentar sem nenhum absurdo que certos sopros astrais chegam a provocar variações nos corpos”. Daí, se recorremos aos juízos astrais para conhecer antecipadamente os efeitos físicos, por exemplo, tempestade e tempo calmo, saúde ou doença do corpo, abundância e pobreza das colheitas e todas as coisas desse tipo, que dependem de causas físicas e naturais, é claro que não é pecado.

Pois todos os homens, quando se trata de fatos desse tipo, recorrem à observação dos corpos celestes: assim os agricultores semeiam e colhem num dado tempo, que é determinado pelo movimento do sol; os marinheiros evitam navegar na lua cheia ou em eclipse; os médicos, em relação às doenças, respeitam os dias críticos que são determinados pelo curso do sol e da lua.

Por isso não é inconveniente, seguindo outras observações menos visíveis das estrelas a respeito de efeitos corporais (físicos), usar os juízos dos astros. ENTRETANTO, É PRECISO ABSOLUTAMENTE AFIRMAR QUE A VONTADE DO HOMEM NÃO ESTÁ SUJEITA A UMA FATALIDADE ASTRAL; de outro modo, seria o fim do livre arbítrio; e se fosse suprimido, nem as boas obras seriam meritórias para o homem, nem as más, culpáveis. E assim todo cristão deve sustentar firmemente que tudo o que depende da vontade humana, isto é, todas as ações humanas, não se sujeitam a uma necessidade astral. E por isso é dito em Jeremias X,2: “não temais nada dos sinais do céu, os quais são temidos pelas nações”.

MAS O DIABO, A FIM DE ATRAIR TODOS OS HOMENS AO ERRO, SE MISTURA NAS AÇÕES DOS QUE PRESTAM ATENÇÃO AOS JUÍZOS DOS ASTROS. POR ISSO DISSE AGOSTINHO EM “SUPER GEN. AD LITTERAM”: “É PRECISO RECONHECER QUE QUANDO OS ASTRÓLOGOS DIZEM COISAS VERDADEIRAS, ELAS SÃO DITAS SOB O EFEITO DE UMA INSPIRAÇÃO OCULTÍSSIMA, À QUAL OS ESPÍRITOS HUMANOS SE SUBMETEM SEM SABER; COMO ISTO É FEITO PARA ENGANAR OS HOMENS, TRATA-SE DE UMA OPERAÇÃO DOS ESPÍRITOS IMUNDOS E SEDUTORES, AOS QUAIS É PERMITIDO SABER UM CERTO NÚMERO DE VERDADES SOBRE AS REALIDADES TEMPORAIS. É POR ISSO QUE AGOSTINHO DIZ EM “DOCTRINA CHRISTIANA, II” QUE ESSE TIPO DE ACERTOS DOS ASTROS DEVEM SER REFERIDOS A PACTOS FEITOS COM OS DEMÔNIOS.

O cristão deve absolutamente evitar ter pacto ou sociedade com os demônios, segundo a palavra do Apóstolo em 1Coríntios X,20: “Não quero que vos torneis sócios dos demônios”. Eis porque é preciso ter como certo que é um grave pecado fazer uso dos juízos dos astros com relação ao que depende da vontade do homem.

 

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Além dos textos já referidos, temos ainda a ST I, q. 115 arts 3-6 onde Santo Tomás volta ao tema da influência dos astros.

Em todo caso, acho as afirmações dele no texto que traduzi – com destaque para a parte em caixa alta – muito significativa para o assunto, apesar de cronologicamente ser anterior. Tenho as seguintes ponderações:

1) O De Iudiciis Astrorum tem a vantagem de ser uma resposta sucinta a uma pergunta objetiva (“é lícito recorrer ao juízo dos astros?”) onde o assunto é precisamente a influência dos astros e a astrologia.

2) Comparando-o com a ST, e também com o Compêndio 127-128, por você aludido, vemos que nestes existe maior desenvolvimento e amplitude no tratamento do assunto, mas as partes essenciais são as mesmas do opúsculo.

3) Santo Tomás admite a influência direta a nível corporal e sensitivo dos astros e acha útil conhecê-las para fins muito práticos, como as semeaduras e colheitas, navegação, etc.

4) Também admite a influência indireta ou “per accidens” dos astros nas faculdades espirituais humanas graças à gnosiologia baseada no sentidos, por serem estes corpóreos.

5) Essa admissão é, contudo, logo ponderada com a declaração da não determinação dessa influência sobre a vontade, excluindo todo fatalismo das mesmas.

(Até aqui, creio que estamos de acordo.)

6) O fato de Santo Tomás alertar Reginaldo, tratando deste assunto, de que “o diabo se mistura nas ações dos que prestam atenção aos juízos dos astros” e cita Santo Agostinho para lembrar que “quando os astrólogos dizem coisas verdadeiras, elas são ditas (…) por operação dos espíritos imundos e sedutores” é muito revelador sobre a atitude de Santo Tomás com relação à atividade que parece ser mais específica dos astrólogos. isto é, a adivinhação.

7) De fato, Santo Tomás não usa, nem no opúsculo, nem no Compêndio nem na Summa Theologica, a palavra “astrologia” para se referir ao conhecimento útil sobre o efeito dos astros no mundo (que você refere como sendo a “verdadeira astrologia”). Essa palavra, pelo contrário, tem sempre uma acepção negativa, associada a limite ou irrelevância, como se confirma por este trecho da ST: “Os astrólogos são capazes de predizer a verdade de uma forma geral, mas não em casos particulares, pois nada impede o homem de resistir às paixões por seu livre arbítrio. Donde os próprios astrólogos têm que admitir que “o sábio é mais forte que as estrelas” (Ptolomeu, Centiloquium prop 5), na medida em que ele conquista suas paixões”. É a “maioria dos homens que segue suas paixões, que são movimentos do apetite sensível, para os quais os movimentos dos astros celestes podem cooperar” (Iª q. 115 a. 4 ad 3 ).

8) Ao ressaltar a liberdade dos sábios em relação ao que pode prever a astrologia em matéria humana, Santo Tomás se distancia de uma valorização da astrologia que extrapola as aplicações pragmáticas já aludidas. Ele imediatamente passa à exortação contra os perigos da influência demoníaca nesse campo, o que mostra a grande restrição do Doutor ao que ele mesmo denomina “astologia” e seus costumeiros “pactos com o demônio”.

9) De modo geral, Santo Tomás está sempre mais preocupado em alertar contra os perigos da astrologia e suas limitações, do que em referendar o que ela pode ter de verdadeiro (o que ele no entanto faz, sem constrangimentos). Lidando com os conhecimentos disponíveis em sua época, os filósofos medievais elaborraam explicações para fenônemos naturais que hoje conhecemos mais claramente, como a atração gravitacional, a fotossíntese, as marés, etc. Paralelamente, muitos dos chamados astrólogos não estavam preocupados com filosofia, mas recorriam à adivinhação por recurso ao pacto demoníaco, certamente com fins de lucro e benefício próprio, não com o desapego essencial à filosofia.

10) A conseqüência prática do quanto foi exposto é que não convém afirmar uma aprovação genérica de Santo Tomás à astrologia. Mesmo uma expressão como “astologia verdadeira” não corresponde à atitude geral negativa do Doutor em relação à atividade dos “astrólogos”. É mais correto falar da concordância dele com a utilidade dos “juízos dos astros”, ou do que poderíamos chamar, por exemplo, de “astronomia pragmática”. É claro que, sendo um simples termo, podem ser apresentado como equívoco e convencionado da forma correta, mas, em vista do cuidado com os fracos, deveria ser evitado.

 

Um pouco de lucubração final:

Não advogo em favor absoluto da ciência moderna, apesar de meus estudos na área. Mas embora eu não tenha preconceito com a simbólica (bem entendida), não me parece que precisemos necessariamente recorrer a ela, e nem à metafísica, para buscar pistas de explicações para as características gerais dos signos do zodíaco. Penso, como proposta bem despretensiosa de elaboração do problema, que há uma lacuna científica a ser preenchida com o estudo do efeito da exposição do ser humano à região do espaço relativa ao local terreno no momento da concepção (não do nascimento). A formação do zigoto envolve o encadeamento complexo de reações químicas, com suas respectivas disposições quânticas, que poderiam estar sujeitas a influências específicas da sua posição relativa ao espaço sideral, com conseqüências na estrutura interna do DNA (pressupondo um bloqueio ou atenuação das demais regiões do espaço pela matéria da Terra). As referências de Santo Tomás a causas materiais desses efeitos, como a umidade notável do cérebro, parece mostrar que ele preferia pensar o assunto em termos estritamente cosmológicos. Essas influências podem ser devidas a radiações cósmicas ou confluências gravitacionais causadas por fenônemos siderais como quasares, buracos negros, dobras, etc.

(Félix Ferrà)

 

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Nnos estudos nessa área, tenhamos sempre em mente as palavras bem delimitadoras do não apenas Padre da Igreja, como também Doutor Egrégio, o gigante Santo Isidoro de Sevilha, que nos alerta em suas Etimologias:

 

De astronomia, XXVII. DE DIFFERENTIA ASTRONOMIAE ET ASTROLOGIAE. [1] Inter Astronomiam autem et Astrologiam aliquid differt. Nam Astronomia caeli conversionem, ortus, obitus motusque siderum continet, vel qua ex causa ita vocentur. Astrologia vero partim naturalis, partim superstitiosa est. [2] Naturalis, dum exequitur solis et lunae cursus, vel stellarum certas temporum stationes. Superstitiosa vero est illa quam mathematici sequuntur, qui in stellis auguriantur, quique etiam duodecim caeli signa per singula animae vel corporis membra disponunt, siderumque cursu nativitates hominum et mores praedicare conantur.

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Tradução rápida:

Santo Isidoro de Sevilha (+636), Etimologias:

Diferença entre Astronomia e Astrologia:

1) Existe diferença entre astronomia e astrologia. Pois a astronomia trata das mudanças no céu, dos movimentos nascente e poente das estrelas, e por isso é assim chamada. A astrologia, no entanto, é em parte natural e em parte supersticiosa. 2) Natural, enquanto acompanha o curso do sol e da lua, ou de algumas estrelas para as estações do tempo. Supersticiosa, no entanto, é aquela seguida pelos matemáticos que fazem augúrios nas estrelas, que também dispõem doze sinais do céu para cada alma ou membros do corpo, e tentam prever pelo curso das estrelas o nascimento e o comportamento dos homens.

brody

“A ideologia é a tentativa de substituir os dogmas religiosos por dogmas políticos e científicos.”

– Russell Kirk, ‘Eliot and His Age’

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“A ideologia é a existência em rebelião contra Deus e o homem. É a violação do primeiro e do décimo mandamentos, se quisermos empregar a linguagem da ordem israelita; é a nosos, a doença do espírito, empregando a linguagem de Ésquilo e Platão” (VOEGELIN, 2009, p. 32).

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“As ideologias destroem a linguagem, uma vez que, tendo perdido o contato com a realidade, o pensador ideológico passa a construir símbolos não mais para expressá-la, mas para expressão sua alienação em relação a ela” (VOEGELIN, 2008, p. 39).

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“A ideologia é uma religião invertida; A ideologia faz do entendimento político algo impossível; Ideólogos competem entre si, em uma imaginada fidelidade à sua verdade absoluta; e são rápidos em denunciar os desviantes ou traidores de sua ortodoxia partidária” (KIRK, 20013, p. 95).

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“A ideologia oferece uma imitação de religião e uma filosofia fraudulenta” (KIRK, 2013, p. 96).

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“A ideologia é a doença, não a cura. Todas as ideologias, incluindo a ideologia da vox populi vox Dei, são hostis à permanência da ordem, da liberdade e da justiça. A ideologia é a política da irracionalidade apaixonada” (KIRK, 2013, p. 98).

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O sol se levanta todas as manhãs. Eu não me levanto todas as manhãs; mas a variação se deve não à minha atividade, mas à minha inação. 

Ora, para expressar o caso numa linguagem popular, poderia ser verdade que o sol se levanta regularmente por nunca se cansar de levantar-se. Sua rotina talvez se deva não à ausência de vida, mas a uma vida exuberante. O que quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando elas descobrem algum jogo ou brincadeira com que se divertem de modo especial. Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia.

Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. E possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”; e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na Natureza pode não ser uma simples recorrência; ela pode ser um BIS de teatro.  O céu pode ter pedido BIS ao pássaro que pôs um ovo. 

Se o ser humano concebe e dá à luz um bebê humano em vez de dar à luz um peixe, ou um morcego, ou um grifo, pode ser que não seja pelo fato de estarmos fixados em um destino animal sem vida ou finalidade.  Pode ser que a nossa pequena tragédia tenha impressionado os deuses, que eles admirem-na lá do alto das suas cintilantes galerias, e que ao final de cada drama humano o homem seja chamado uma e outra vez à boca de cena.  E a repetição poderá continuar por milhares de anos, por pura escolha, e em qualquer instante poderá acabar.  Os homens podem permanecer na terra por gerações e gerações, e entretanto cada nascimento poderá muito bem ser a sua última apresentação.

 Esta foi minha primeira convicção, gerada pelo encontro entre minhas impressões infantis e o credo moderno.  Tive sempre o vago sentimento de que os fatos são milagres no sentido de que são maravilhosos; agora comecei a considerá-los milagres no estrito sentido de que eram INTENCIONAIS.  Isto quer dizer que eles eram, ou poderiam ser, repetidos atos de alguma vontade.  Em suma, sempre acreditei que o mundo tinha alguma coisa de mágico; e agora eu penso que ele talvez tenha alguma coisa a ver com um mágico.  E isto originou uma profunda impressão sempre presente e subconsciente; a de que este nosso mundo tem alguma finalidade; e, se há uma finalidade, há alguém.  Sempre considerei a vida antes de tudo como uma história: e se há uma história há um contador de histórias.

(“Ortodoxia”, Chesterton)

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"A religião não era o ópio e sim a poesia da humanidade".

(Harold Bloom sobre Flannery O'Connor).

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