Astrologia e Cristianismo (comentários de Félix Ferrà)

In: Cristianismo

10 dez 2016

Opinião de Santo Tomás de Aquino (citando Santo Agostinho).

tomas

Enaltecer astrologia, no sentido de buscar o “juízo” dos astros sobre o agir e o futuro das pessoas, como algo lícito e compatível com a fé cristã é inteiramente contrário ao que diz a Sagrada Escritura e o grande “Doutor Comum”, Santo Tomás de Aquino. Há quem afirme que este praticava astrologia (o que, pelo uso do termo, só pode ser entendido pela audiência de hoje no sentido acima). Um absurdo sem tamanho, porque o que ele faz é eximir de pecado o estudo dos astros e seus efeitos físicos sobre o mundo (o que seria mais uma astronomia, em termos atuais). Ocorre que há pessoas na internet se passando por profundos conhecedores de teologia e tomismo que nem sequer conhecem o catálogo das obras de Santo Tomás. Se conhecessem, antes de afirmar bobagem, leriam seu opúsculo autêntico “De iudiciis astrorum ad fratrem Reginaldum socium suum carissimum” (datável entre 1269-72). É um texto bem pequeno, de modo que coloco aqui uma tradução minha, com a intenção de alertar para o perigo de utilizar o termo astrologia como algo compatível com a fé cristã, sem fazer as devidas ressalvas ao termo medieval, e ainda envolver Santo Tomás, o que é uma calúnia insuportável.

(Félix Ferrà)

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DE IUDICIIS ASTRORUM AD FRATREM REGINALDUM SOCIUM SUUM CARISSIMUM (tradução do texto leonino 1976):

Os juízos dos astros. Como me pedistes para te escrever sobre se era permitido recorrer ao juízo dos astros, dado que gostaria de satisfazer ao teu pedido, cuidei em escrever o que foi escrito sobre isso pelos santos doutores.

Primeiro, é preciso que saibas que o poder dos corpos celestes é capaz de modificar os corpos inferiores. Disse a esse respeito Agostinho, Cidade de Deus, V: “podemos sustentar sem nenhum absurdo que certos sopros astrais chegam a provocar variações nos corpos”. Daí, se recorremos aos juízos astrais para conhecer antecipadamente os efeitos físicos, por exemplo, tempestade e tempo calmo, saúde ou doença do corpo, abundância e pobreza das colheitas e todas as coisas desse tipo, que dependem de causas físicas e naturais, é claro que não é pecado.

Pois todos os homens, quando se trata de fatos desse tipo, recorrem à observação dos corpos celestes: assim os agricultores semeiam e colhem num dado tempo, que é determinado pelo movimento do sol; os marinheiros evitam navegar na lua cheia ou em eclipse; os médicos, em relação às doenças, respeitam os dias críticos que são determinados pelo curso do sol e da lua.

Por isso não é inconveniente, seguindo outras observações menos visíveis das estrelas a respeito de efeitos corporais (físicos), usar os juízos dos astros. ENTRETANTO, É PRECISO ABSOLUTAMENTE AFIRMAR QUE A VONTADE DO HOMEM NÃO ESTÁ SUJEITA A UMA FATALIDADE ASTRAL; de outro modo, seria o fim do livre arbítrio; e se fosse suprimido, nem as boas obras seriam meritórias para o homem, nem as más, culpáveis. E assim todo cristão deve sustentar firmemente que tudo o que depende da vontade humana, isto é, todas as ações humanas, não se sujeitam a uma necessidade astral. E por isso é dito em Jeremias X,2: “não temais nada dos sinais do céu, os quais são temidos pelas nações”.

MAS O DIABO, A FIM DE ATRAIR TODOS OS HOMENS AO ERRO, SE MISTURA NAS AÇÕES DOS QUE PRESTAM ATENÇÃO AOS JUÍZOS DOS ASTROS. POR ISSO DISSE AGOSTINHO EM “SUPER GEN. AD LITTERAM”: “É PRECISO RECONHECER QUE QUANDO OS ASTRÓLOGOS DIZEM COISAS VERDADEIRAS, ELAS SÃO DITAS SOB O EFEITO DE UMA INSPIRAÇÃO OCULTÍSSIMA, À QUAL OS ESPÍRITOS HUMANOS SE SUBMETEM SEM SABER; COMO ISTO É FEITO PARA ENGANAR OS HOMENS, TRATA-SE DE UMA OPERAÇÃO DOS ESPÍRITOS IMUNDOS E SEDUTORES, AOS QUAIS É PERMITIDO SABER UM CERTO NÚMERO DE VERDADES SOBRE AS REALIDADES TEMPORAIS. É POR ISSO QUE AGOSTINHO DIZ EM “DOCTRINA CHRISTIANA, II” QUE ESSE TIPO DE ACERTOS DOS ASTROS DEVEM SER REFERIDOS A PACTOS FEITOS COM OS DEMÔNIOS.

O cristão deve absolutamente evitar ter pacto ou sociedade com os demônios, segundo a palavra do Apóstolo em 1Coríntios X,20: “Não quero que vos torneis sócios dos demônios”. Eis porque é preciso ter como certo que é um grave pecado fazer uso dos juízos dos astros com relação ao que depende da vontade do homem.

 

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Além dos textos já referidos, temos ainda a ST I, q. 115 arts 3-6 onde Santo Tomás volta ao tema da influência dos astros.

Em todo caso, acho as afirmações dele no texto que traduzi – com destaque para a parte em caixa alta – muito significativa para o assunto, apesar de cronologicamente ser anterior. Tenho as seguintes ponderações:

1) O De Iudiciis Astrorum tem a vantagem de ser uma resposta sucinta a uma pergunta objetiva (“é lícito recorrer ao juízo dos astros?”) onde o assunto é precisamente a influência dos astros e a astrologia.

2) Comparando-o com a ST, e também com o Compêndio 127-128, por você aludido, vemos que nestes existe maior desenvolvimento e amplitude no tratamento do assunto, mas as partes essenciais são as mesmas do opúsculo.

3) Santo Tomás admite a influência direta a nível corporal e sensitivo dos astros e acha útil conhecê-las para fins muito práticos, como as semeaduras e colheitas, navegação, etc.

4) Também admite a influência indireta ou “per accidens” dos astros nas faculdades espirituais humanas graças à gnosiologia baseada no sentidos, por serem estes corpóreos.

5) Essa admissão é, contudo, logo ponderada com a declaração da não determinação dessa influência sobre a vontade, excluindo todo fatalismo das mesmas.

(Até aqui, creio que estamos de acordo.)

6) O fato de Santo Tomás alertar Reginaldo, tratando deste assunto, de que “o diabo se mistura nas ações dos que prestam atenção aos juízos dos astros” e cita Santo Agostinho para lembrar que “quando os astrólogos dizem coisas verdadeiras, elas são ditas (…) por operação dos espíritos imundos e sedutores” é muito revelador sobre a atitude de Santo Tomás com relação à atividade que parece ser mais específica dos astrólogos. isto é, a adivinhação.

7) De fato, Santo Tomás não usa, nem no opúsculo, nem no Compêndio nem na Summa Theologica, a palavra “astrologia” para se referir ao conhecimento útil sobre o efeito dos astros no mundo (que você refere como sendo a “verdadeira astrologia”). Essa palavra, pelo contrário, tem sempre uma acepção negativa, associada a limite ou irrelevância, como se confirma por este trecho da ST: “Os astrólogos são capazes de predizer a verdade de uma forma geral, mas não em casos particulares, pois nada impede o homem de resistir às paixões por seu livre arbítrio. Donde os próprios astrólogos têm que admitir que “o sábio é mais forte que as estrelas” (Ptolomeu, Centiloquium prop 5), na medida em que ele conquista suas paixões”. É a “maioria dos homens que segue suas paixões, que são movimentos do apetite sensível, para os quais os movimentos dos astros celestes podem cooperar” (Iª q. 115 a. 4 ad 3 ).

8) Ao ressaltar a liberdade dos sábios em relação ao que pode prever a astrologia em matéria humana, Santo Tomás se distancia de uma valorização da astrologia que extrapola as aplicações pragmáticas já aludidas. Ele imediatamente passa à exortação contra os perigos da influência demoníaca nesse campo, o que mostra a grande restrição do Doutor ao que ele mesmo denomina “astologia” e seus costumeiros “pactos com o demônio”.

9) De modo geral, Santo Tomás está sempre mais preocupado em alertar contra os perigos da astrologia e suas limitações, do que em referendar o que ela pode ter de verdadeiro (o que ele no entanto faz, sem constrangimentos). Lidando com os conhecimentos disponíveis em sua época, os filósofos medievais elaborraam explicações para fenônemos naturais que hoje conhecemos mais claramente, como a atração gravitacional, a fotossíntese, as marés, etc. Paralelamente, muitos dos chamados astrólogos não estavam preocupados com filosofia, mas recorriam à adivinhação por recurso ao pacto demoníaco, certamente com fins de lucro e benefício próprio, não com o desapego essencial à filosofia.

10) A conseqüência prática do quanto foi exposto é que não convém afirmar uma aprovação genérica de Santo Tomás à astrologia. Mesmo uma expressão como “astologia verdadeira” não corresponde à atitude geral negativa do Doutor em relação à atividade dos “astrólogos”. É mais correto falar da concordância dele com a utilidade dos “juízos dos astros”, ou do que poderíamos chamar, por exemplo, de “astronomia pragmática”. É claro que, sendo um simples termo, podem ser apresentado como equívoco e convencionado da forma correta, mas, em vista do cuidado com os fracos, deveria ser evitado.

 

Um pouco de lucubração final:

Não advogo em favor absoluto da ciência moderna, apesar de meus estudos na área. Mas embora eu não tenha preconceito com a simbólica (bem entendida), não me parece que precisemos necessariamente recorrer a ela, e nem à metafísica, para buscar pistas de explicações para as características gerais dos signos do zodíaco. Penso, como proposta bem despretensiosa de elaboração do problema, que há uma lacuna científica a ser preenchida com o estudo do efeito da exposição do ser humano à região do espaço relativa ao local terreno no momento da concepção (não do nascimento). A formação do zigoto envolve o encadeamento complexo de reações químicas, com suas respectivas disposições quânticas, que poderiam estar sujeitas a influências específicas da sua posição relativa ao espaço sideral, com conseqüências na estrutura interna do DNA (pressupondo um bloqueio ou atenuação das demais regiões do espaço pela matéria da Terra). As referências de Santo Tomás a causas materiais desses efeitos, como a umidade notável do cérebro, parece mostrar que ele preferia pensar o assunto em termos estritamente cosmológicos. Essas influências podem ser devidas a radiações cósmicas ou confluências gravitacionais causadas por fenônemos siderais como quasares, buracos negros, dobras, etc.

(Félix Ferrà)

 

***

 

Nnos estudos nessa área, tenhamos sempre em mente as palavras bem delimitadoras do não apenas Padre da Igreja, como também Doutor Egrégio, o gigante Santo Isidoro de Sevilha, que nos alerta em suas Etimologias:

 

De astronomia, XXVII. DE DIFFERENTIA ASTRONOMIAE ET ASTROLOGIAE. [1] Inter Astronomiam autem et Astrologiam aliquid differt. Nam Astronomia caeli conversionem, ortus, obitus motusque siderum continet, vel qua ex causa ita vocentur. Astrologia vero partim naturalis, partim superstitiosa est. [2] Naturalis, dum exequitur solis et lunae cursus, vel stellarum certas temporum stationes. Superstitiosa vero est illa quam mathematici sequuntur, qui in stellis auguriantur, quique etiam duodecim caeli signa per singula animae vel corporis membra disponunt, siderumque cursu nativitates hominum et mores praedicare conantur.

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Tradução rápida:

Santo Isidoro de Sevilha (+636), Etimologias:

Diferença entre Astronomia e Astrologia:

1) Existe diferença entre astronomia e astrologia. Pois a astronomia trata das mudanças no céu, dos movimentos nascente e poente das estrelas, e por isso é assim chamada. A astrologia, no entanto, é em parte natural e em parte supersticiosa. 2) Natural, enquanto acompanha o curso do sol e da lua, ou de algumas estrelas para as estações do tempo. Supersticiosa, no entanto, é aquela seguida pelos matemáticos que fazem augúrios nas estrelas, que também dispõem doze sinais do céu para cada alma ou membros do corpo, e tentam prever pelo curso das estrelas o nascimento e o comportamento dos homens.

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(Harold Bloom sobre Flannery O'Connor).

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