Da incompatibilidade fundamental entre o guenonismo e o catolicismo

In: Cristianismo|Religião

16 dez 2016

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«Queremos evidenciar que existe uma oposição, fundamental e radical, entre o guenonismo e o catolicismo, e que tal oposição não é apenas de idéias mas de inspirações. Guénon não é só um filósofo ou pensador de idéias heterodoxas, como afirmara com razão a maioria dos contestadores católicos. O problema é muito mais grave e sério: na verdade, ele é um autor espiritual que propõe uma espiritualidade pretensamente superior à espiritualidade da Igreja Católica. Aos leitores expõe muito mais do que considerações algo estranhas: sugere o recebimento da iniciação que lhes outorgará uma influência espiritual capaz de impeli-los para muito além da mera “salvação” cristã: a iniciação alçá-los-ia até à “realização espiritual”, à identificação suprema com o absoluto indiferenciado.» (Antoine Motreff [Pe. Pierre-Marie, superior dos dominicanos de Avrillé], Qui a inspiré René Guénon?)

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Ainda sobre o problema da compatibilidade entre as idéias de Guénon e o catolicismo: enquanto que para um um católico, o homem ocupa um lugar único na criação (CIC §355) e é mais precioso aos olhos de Deus do que a criação inteira, para o guenonismo, o ser humano é apenas uma manifestação transitória e contingente do “ser verdadeiro”. Mircea Eliade explica: “Guénon negava a condição privilegiada da personalidade humana. Podemos citar literalmente sua afirmação de que o homem representa apenas uma manifestação transitória e contingente do ser verdadeiro… A individualidade humana… não deve ter uma posição privilegiada, “fora de série”, na hierarquia indefinida dos estados do ser total; o homem ocupa nela uma posição que não é mais importante que a dos outros estados.” (Mircea Eliade, Ocultismo, bruxaria e correntes culturais)

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Guenón não admitia o caráter exclusivista e universalista da Revelação cristã, cujo fundamento é Cristo, único Salvador e Redentor. Para ele, o cristianismo não podia deter, de maneira solitária, um caráter sobrenatural e transcendente: «a afirmação de que o cristianismo possui o monopólio do sobrenatural e é o único a ter um caráter transcendente, e que por consequência, todas as outras tradições são puramente humanas, [...] dito de outro modo, que o cristianismo é uma expressão da Sabedoria divina; [...] nenhum entendimento é realmente possível, com que possua esta pretensão de possuir, com exclusão de todas as demais formas tradicionais, o monopólio da revelação e do sobrenatural.» (R. Guénon, Estudios sobre el Hinduismo).

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O caminho iniciático e a ação do demônio:

«A iniciação, proporciona um “ambiente” favorável a atividade do demônio.» (Antoine Motreff [Pe. Pierre-Marie, superior dos dominicanos de Avrillé], Qui a inspiré René Guénon?)

«A análise que René Guenón faz da iniciação é, em parte, exata; a iniciação pode muito bem “conferir uma influência espiritual de origem não-humana”, pois constitui um pacto (ao menos implícito) com o demônio. Esta influência se exerce sobre a imaginação…Há, pois, uma espécie de iluminação demoníaca…que pode permitir ao iniciado conhecer certas coisas, que não poderia conhecer naturalmente. Todavia, este conhecimento terá por efeito distanciar-se de Deus, de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Sua Igreja. Desde o ponto de vista moral, tal iniciação constitui um pecado mortal contra a virtude de religião.» (Antoine Motreff [Pe. Pierre-Marie, superior dos dominicanos de Avrillé], Qui a inspiré René Guénon?)

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Finalizando:

René Guenón ainda julgava os sacramentos da Igreja inferiores aos chamados “ritos iniciáticos”. Em Aperçus sur l’initiation (1946), ele faz distinção entre “ritos religiosos” e “ritos iniciáticos”. Na sequência, afirma que a denominação «sacramento» pertence a categoria de ritos religiosos, que segundo ele, são apenas ritos de «agregação», incluindo o rito eucarístico da comunhão. Ora, este sacramento contém a plenitude da divindade de Jesus Cristo. Como poderia qualquer outro rito suplantar a este, e como poderia conferir algo “mais elevado” que o Corpo e o Sangue do Deus Encarnado? A ideia de que possa existir um rito mais sacrossanto e capaz de conferir maior e mais graça que a Eucaristia, aparece como “ridícula” aos olhos de qualquer católico que ainda não perdeu a fé.

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Todas as citações foram e comentários foram selecionados e elaborados pelo professor Daniel Fernandes.

Comentários Fechados.

"A religião não era o ópio e sim a poesia da humanidade".

(Harold Bloom sobre Flannery O'Connor).

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