“Os Magos do Oriente” (Bento XVI)

In: Cristianismo

6 jan 2017

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  1. Quadro histórico e geográfico da narração

“Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos (astrólogos) vindos do Oriente. E perguntaram: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,1-2).

Os paralelismos de Augusto voltam a aparecer em Herodes: ele que reina graças a protecção do governador e faz isso com pretensão messiânica. A profecia de Balaão, um vidente pagão, que encontramos em Nm 24,17: “Eu vejo, mas não para já; contemplo-o, mas ainda não próximo: uma estrela surge de Jacob e um ceptro se ergue de Israel”, poderia estar a circular fora do judaísmo e poderia ser objecto de reflexão para as pessoas num caminho de busca.

  1. Quem eram os magos?

Eram membros de uma casta sacerdotal persa (dirigentes de uma religião, com ideias religiosas fortemente influenciadas pelo pensamento filosófico); detentores e profissionais de um saber e de um poder sobrenaturais (feiticeiro, sedutor). Os magos que Mt 2 apresenta embora não pertencessem exactamente a classe sacerdotal persa, eram portadores de um conhecimento religioso e filosófico que se desenvolvera e se achava ainda presente naqueles ambientes. Mas que género de homens eles eram? Provavelmente não eram apenas astrónomos, mas homens de uma certa inquietação interior, homens de esperança, à procura da verdadeira Estrela da salvação; eles eram sábios que iam pata além de si mesmo a busca de Deus. Eles representam o caminho das religiões para Cristo, bem como a auto-superação da ciência rumo a Ele: o movimento das religiões e da razão humana ao encontro de Cristo. Eles representam o encaminhamento da humanidade para Cristo, inauguram uma procissão que percorre a história inteira.

  1. A estrela

Várias são as teorias sobre a estrela de Belém, sendo que uma apontam para a estrela como um fenómeno astronómico e outros (como é o caso de Crisóstomo) diz que não se tratava duma estrela comum, mas um poder invisível que adoptara tal fisionomia. Ora, a grande conjunção de Júpiter e Saturno (o fenómeno da estrela muito brilhante) no signo zodiacal de Peixes nos anos 7-6 a.C (ano provável do nascimento de Cristo) parece ser um facto confirmado.

A linguagem da criação suscita no homem a intuição do Criador, suscita a esperança de que um dia esse Deus se manifestará e suscita a consciência que o homem deverá ir ao encontro d’Ele. Na verdade a estrela conduziu os magos até a Judeia mas só pelas Sagradas Escrituras de Israel (Mt 2,6; Mq 5,1; 2 Sm 5,2) é que eles encontraram a estrada para o verdadeiro herdeiro de David. Um dos Padres (Gregório Nazianzeno) diz que no momento em que os magos se prostraram diante de Jesus, terá chegado o fim da astrologia. Nesta ordem de ideia percebe-se que não é a estrela que determina o destino do menino, mas o menino que guia a estrela.

  1. Paragem intermédia em Jerusalém

Os magos procuram pelo “rei dos judeus”, uma linguagem não judaica porque o comum era “rei de Israel”; “rei dos judeus” volta a aparecer no processo de Jesus e na inscrição da Cruz, usada em ambos casos por um pagão, Pilatos (cf. Mc 15,9; Jo 19,19-22), o que significa que no momento em que os primeiros pagãos perguntam por Jesus já transparece o mistério da cruz, indivisivelmente ligado à realeza de Jesus. Ouvido isso Herodes e toda Jerusalém ficaram perturbados, pois aquilo que na grande perspectiva da fé é uma estrela de esperança, na perspectiva da vida quotidiana constitui, inicialmente, apenas causa de transtorno, motivo de preocupação e temor. É que Deus perturba a nossa comodidade diária.

  1. A adoração dos magos diante de Jesus

A estrela que os magos seguiam desapareceu em Jerusalém, só depois do encontro dos magos com a Palavra da Escritura, a estrela resplandece de novo para eles. A criação, interpretada pela Escritura, volta a falar ao homem. Ao ver a estrela sentiram fortemente uma grandíssima alegria (Mt 2,10). É a alegria do homem que é atingido no coração pela luz de Deus e pode ver realizada a sua esperança: a alegria daquele que encontrou e foi encontrado. Os magos prostram-se diante d’Ele; esta é a homenagem que se presta a um Rei-Deus; e oferecem presentes: em Is 60,6 o ouro e incenso são presentes que hão-de ser oferecidos pelos povos ao Deus de Israel. O ouro mostra a realeza, o incenso aponta para sua filiação divina, e a mirra para o mistério da sua Paixão (em Jo 19,39 diz-se que Nicodemos trouxe mirra para ungir o corpo de Jesus), assim o mistério da cruz ligado a realeza prenuncia-se já na adoração pagã.

(Resumo do Capítulo IV de “Jesus de Nazaré: a infância de Jesus”)

Fonte: Carlos Evaristo José

Imagem: Adoração dos magos (Gaspare Diziani)

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"A religião não era o ópio e sim a poesia da humanidade".

(Harold Bloom sobre Flannery O'Connor).

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