O deserto do amor, de François Mauriac

In: Literatura

16 abr 2012

Tendo lido tudo o que havia de Thomas Mann na Biblioteca Municipal, passo à leitura de “O Deserto do Amor” de François Mauriac. Rafael Carneiro Rocha, do blog Memória e Identidade  me dá a chave de leitura. Vamos:

Início do século XX, interior da França. O doutor Courrèges e seu filho adolescente Raymond se apaixonam pela mesma mulher de reputação contestada, Maria Cross. São igualmente rejeitados.

No romance O deserto do amor, de François Mauriac (1885-1970), a incomunicabilidade entre as gerações não apenas impede a transmissão de dolorosos legados, como parece favorecê-los. Pai e filho não se falam, mas se assemelham, porque são feitos da mesma carne sem sentido.

Raymond atravessou o Sena deserto, olhou o relógio da estação: seu pai já devia estar no trem. O moço desceu a plataforma de embarque, seguiu ao longo do comboio, não precisou procurar muito: atrás de uma vidraça se destacava o rosto morto; as pálpebras estavam fechadas, as mãos juntas sobre um jornal aberto, a cabeça um pouco derrubada para trás, a boca entreaberta. Raymond tocou com o dedo o vidro: o cadáver abriu os olhos, reconheceu quem batera, sorriu e tropeçando, adiantou-se ao seu encontro pelo corredor. Mas toda a sua felicidade se envenenou ante o receio pueril de que o trem partisse (…) *

Mauriac insiste nas metáforas mórbidas e desérticas. Seus personagens padecem dos mesmos sintomas que a filosofia e a arte do século XX se debruçavam. Mauriac, Kafka, Camus, Sartre. Todos eles carregam o legado de uma época que tenta, quase sempre em vão, se comunicar.

Porém, Mauriac reconhece a felicidade que se envenenou diante de receios pueris.

Mas toda a sua felicidade se envenenou ante o receio pueril de que o trem partisse sem que Raymond tivesse tempo para descer:

- Agora que já o vi, que sei que você quis me rever, vá embora, meu querido: estão fechando as portas.

Em vão o filho lhe garantiu que ainda restavam cinco minutos, e que, além do mais, o trem pararia na estação de Austerlitz; o velho só se acalmou quando viu Raymond novamente na plataforma; então, baixando o vidro, envolveu-o num olhar cheio de amor.

Raymond indagava se nada faltava ao viajante; quereria outro jornal, um livro? Marcara lugar no carro-restaurante? O doutor respondia:

- Sim, sim… – e devorava com os olhos aquele rapaz, aquele homem tão diferente dele, tão parecido com ele – essa parte do seu ser que lhe sobreviveria algum tempo e que ele não deveria rever nunca mais. *

O velho que se encontrava morto passa a ter olhos devoradores, amorosos. Estar diante de si, no filho que se reflete a partir do vidro do trem, faz o homem cônscio da fugacidade de toda a experiência e de todos os legados. Porém, ainda que o mundo seja uma vastidão de coisas que dão para o vazio, o romance de Mauriac sugere que quanto maior o deserto, maior a possibilidade de preenchê-lo de amor.

* Trechos de O deserto do amor, traduzido por Rachel de Queiroz.

Fonte: Memória e Identidade

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