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“A ideologia é a tentativa de substituir os dogmas religiosos por dogmas políticos e científicos.”

– Russell Kirk, ‘Eliot and His Age’

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“A ideologia é a existência em rebelião contra Deus e o homem. É a violação do primeiro e do décimo mandamentos, se quisermos empregar a linguagem da ordem israelita; é a nosos, a doença do espírito, empregando a linguagem de Ésquilo e Platão” (VOEGELIN, 2009, p. 32).

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“As ideologias destroem a linguagem, uma vez que, tendo perdido o contato com a realidade, o pensador ideológico passa a construir símbolos não mais para expressá-la, mas para expressão sua alienação em relação a ela” (VOEGELIN, 2008, p. 39).

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“A ideologia é uma religião invertida; A ideologia faz do entendimento político algo impossível; Ideólogos competem entre si, em uma imaginada fidelidade à sua verdade absoluta; e são rápidos em denunciar os desviantes ou traidores de sua ortodoxia partidária” (KIRK, 20013, p. 95).

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“A ideologia oferece uma imitação de religião e uma filosofia fraudulenta” (KIRK, 2013, p. 96).

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“A ideologia é a doença, não a cura. Todas as ideologias, incluindo a ideologia da vox populi vox Dei, são hostis à permanência da ordem, da liberdade e da justiça. A ideologia é a política da irracionalidade apaixonada” (KIRK, 2013, p. 98).

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O sol se levanta todas as manhãs. Eu não me levanto todas as manhãs; mas a variação se deve não à minha atividade, mas à minha inação. 

Ora, para expressar o caso numa linguagem popular, poderia ser verdade que o sol se levanta regularmente por nunca se cansar de levantar-se. Sua rotina talvez se deva não à ausência de vida, mas a uma vida exuberante. O que quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando elas descobrem algum jogo ou brincadeira com que se divertem de modo especial. Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia.

Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. E possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”; e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na Natureza pode não ser uma simples recorrência; ela pode ser um BIS de teatro.  O céu pode ter pedido BIS ao pássaro que pôs um ovo. 

Se o ser humano concebe e dá à luz um bebê humano em vez de dar à luz um peixe, ou um morcego, ou um grifo, pode ser que não seja pelo fato de estarmos fixados em um destino animal sem vida ou finalidade.  Pode ser que a nossa pequena tragédia tenha impressionado os deuses, que eles admirem-na lá do alto das suas cintilantes galerias, e que ao final de cada drama humano o homem seja chamado uma e outra vez à boca de cena.  E a repetição poderá continuar por milhares de anos, por pura escolha, e em qualquer instante poderá acabar.  Os homens podem permanecer na terra por gerações e gerações, e entretanto cada nascimento poderá muito bem ser a sua última apresentação.

 Esta foi minha primeira convicção, gerada pelo encontro entre minhas impressões infantis e o credo moderno.  Tive sempre o vago sentimento de que os fatos são milagres no sentido de que são maravilhosos; agora comecei a considerá-los milagres no estrito sentido de que eram INTENCIONAIS.  Isto quer dizer que eles eram, ou poderiam ser, repetidos atos de alguma vontade.  Em suma, sempre acreditei que o mundo tinha alguma coisa de mágico; e agora eu penso que ele talvez tenha alguma coisa a ver com um mágico.  E isto originou uma profunda impressão sempre presente e subconsciente; a de que este nosso mundo tem alguma finalidade; e, se há uma finalidade, há alguém.  Sempre considerei a vida antes de tudo como uma história: e se há uma história há um contador de histórias.

(“Ortodoxia”, Chesterton)

Imagem: link

 

 

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Imagem: El Cristo de San Juan de la Cruz – Salvador Dali – 1951

 

“A crucificação de Cristo provocou uma ruptura na história humana que é evidente, e não mera convenção cronológica. A Cruz quebrou a relação do homem com o mito e a filosofia. Chamou-o à Liberdade, permitindo distanciar-se dos poderes deste mundo e melhor situar-se em relação a eles. Uma revelação que não foi facultada ao homem antigo!… O homem de hoje, porém, acredita levianamente poder viver uma existência dupla, recusando essa revelação ao mesmo tempo que chama a si os seus efeitos sobre a cultura e o convívio social. Pretende desligar-se do Cristianismo e procurar na antiguidade outro caminho religioso. Mas, não sabendo distinguir entre a Gravidade e a Graça – como dizia Simone Weil – engana-se por confundir secularização com paganismo. Para ser um pagão autêntico, o postulante de hoje precisa renunciar até à secularização, renunciar às circunstâncias cristãs em que esta se desenvolveu e ainda se sustenta. É preciso que se realize, ou pelo menos tente se realizar, sem o Cristo e sem o Deus que Cristo revelou, para que sinta profundamente o que isso significa. Nietzsche viu-o bem quando disse que o pagão moderno, em sua pretensa apostasia, é tão somente um fanfarrão que não compreende o que significa verdadeiramente o anticristianismo – pois que essa é a única opção ao cristianismo, visto que o paganismo, enquanto tal, já não convence, está fatalmente desacreditado.

 

Se o homem de hoje se torna pagão é num sentido radicalmente diferente do homem antigo. Em toda a sua grandeza perversa e cruel a religiosidade do pagão antigo era, apesar de tudo, uma atitude ingênua. Os pagãos de hoje já não gozam desta vantagem. A crucificação do Cristo projetou a existência do homem num outro nível existencial , fazendo-a adquirir uma dignidade que o homem antigo não conheceu, porque não podia.

É daí que provém a impressão de ridículo, de farsesco, de menoridade espiritual que se percebe nos homens que acreditam num retorno à antiguidade.”

 

(Hans Urs von Balthasar)

 

Fonte da imagem: Mi Buhardila

 cachorro

Na economia atual do plano divino – na qual o pecado veio perturbar, com sua horrível nota a harmonia da obra criada – o Verbo encarnado não é unicamente MEDIADOR DE RELIGIÃO. Ele é ainda, e essencialmente, MEDIADOR DE REDENÇÃO. Foi na qualidade de SALVADOR que o Filho de Deus foi dado ao mundo. E a graça que Ele recebe na plenitude desde a Encarnação visa diretamente a fazê-lo executar o mandato de SALVADOR; para isto inclina todo o seu ser.

Desde a entrada no mundo, Jesus assume as responsabilidades terríveis de Chefe de uma raça decaída: “Não quisestes sacrifícios nem oferendas, mas formaste-me um corpo; não aceitastes holocaustos ou sacrifícios pelo pecado. Então eu disse: Eis que venho, ó Deus, para fazer vossa vontade.” (Heb 10,5-7) Ah! não foi à toa o Deus impassível quis assumir a “inferioridade sublime de nossa sensibilidade!” Não toa que quis ter olhos capazes de se encher de lágrimas, rosto suscetível de se contrair sob a mordedura da dor, corpo sujeito a um sofrimento, coração cuja fina delicadeza pode experimentar todos os gêneros de tristeza e de angústia num grau que os nossos ignorarão sempre.

Ele será o Rei, o nosso Jesus! Mas rei contestado, rei sofredor, rei cujo cetro será uma cruz e cujo diadema será um coroa de espinhos! A liturgia no Natal no-lo mostra “trazendo em suas espáduas o sinal da primazia” (Is 9,6) desde o nascimento. A loucura do presépio prepara-nos para o Calvário!

Sim, loucura de amor, a Paixão! Jesus teria podido salvar o mundo oferecendo ao Pai um suspiro de seu Coração, uma oração dos seus lábios ou um olhar dos seus olhos! Ei-lo que escolhe livremente o sofrimento, a vergonha, a morte ignominiosa e sangrenta da cruz! Por que o faz? Ah, é que Ele nos ama e o amor não age com mesquinharia. Ele receava que, se nos salvasse por meios fáceis, nós poríamos em dúvida a imensidade do seu amor! É privilégio do amor, quando puro e forte, fazer mais do que é preciso e incidir em sublimes extravagâncias. E se este amor é de um Deus, sua medida será ultrapassar todas as medidas! Jesus pagará, portanto, o nosso resgate e o pagará com usura. Afogará o pecado num dilúvio de expiação. Renderá assim glória ao Pai, fazendo-se “obediente até a morte de cruz”; abrirá para os homens uma fonte de graças de tal modo abundante, ao derramar sobre eles seu divino Sangue. que será verdade dizer com S. Francisco de Sales: “O estado de redenção vale cem vezes mais que o estado de inocência!”.

(Irmã da Providência,”A fé no amor de Deus”)

Imagem: Mi Buhardilla

Homens cultos

In: Cultura

5 dez 2016

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Não estou querendo dizer que só os homens instruídos e cultos são capazes de contribuir com algo valioso para o mundo. Não é isso. O que eu quero dizer é que os homens instruídos e cultos, se de fato tiverem brilho e capacidade criadora… o que, infelizmente é raro… tendem a deixar registros infinitamente mais valiosos que aqueles que apenas têm brilho e capacidade criadora. Tendem a se expressar com mais clareza e, geralmente, têm a paixão de desenvolver seu pensamento até o fim. E… o que é mais importante… na grande maioria dos casos têm mais humildade do que o pensador menos culto.

(J. D. Salinger, em “O Apanhador no Campo de Centeio”)

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CESSEM AS GUERRAS CONTRA O PAPA (Carta nº28 a Bernabó Visconti)

4. Nada Façais Contra o Papa

Oh Filho de Deus, bondoso Verbo! Deixaste tal sangue no corpo (místico) da Santa Igreja e desejais que ele seja distribuído pelo teu Representante (o Papa)!

Deus veio em socorro das necessidades do homem que dia a dia perde o domínio de si mesmo, ofendendo o Criado. Deus pôs na Igreja o remédio da Santa Confissão, que é eficaz no vigor do Sangue. E a oferece não apenas uma vez, mas sempre. Sem juízo é quem deixa (a confissão) para o futuro e age contra tal representante que retém as chaves do sangue de Cristo crucificado. Ainda que ele fosse um demônio encarnado, jamais devo levantar minha cabeça contra ele. SEMPRE DEVO HUMILHAR-ME E IMPLORAR MISERICÓRDIA. É A UNICA MANEIRA DE RECEBER OU PARTICIPAR DOS FRUTOS DA REDENÇÃO. PEÇO-VOS QUE NADA FAÇAIS CONTRA O VOSSO CHEFE .”

Não vos admireis se o DEMÔNIO, como já o fez, venha por uma COLORAÇÃO DE VIRTUDE no desejo de fazer justiça contra PASTORES MAUS E CULPADOS. Não acrediteis nele. Não FAÇAIS JUSTIÇA em assuntos QUE NÃO VOS DIZEM RESPEITO. NOSSO SALVADOR NÃO O QUER. Ele afirma que os Pastores são seus ungidos (Sl 105,15). Deus não quer que vós e qualquer outra pessoa façais justiça contra um se; Ele a fará. Assim como não convém que um servo assuma a autoridade do juiz para exercer a justiça contra um malfeitor. Seria uma ATITUDE MÁ porque não toca a ele fazer tal coisa.

E se perguntássemos: “E quando o juiz não faz justiça, não é um bem que eu faça” ? Respondo: “NÃO!SE A FIZERDES, SEREIS CASTIGADOS”. Quem mandar matar receberá a mesma sentença. A lei não perdoará sua “boa” intenção de matar o malfeitor. No caso de um juiz que é mau e não faz justiça, nem a lei nem a religião permitem que o substituais; deveis deixar ao Supremo Juiz que o condene. Deus não permitirá que as injustiças e demais faltas fiquem impunes no lugar e tempo oportunos. Sobretudo na hora da morte, depois desta tenebrosa vida, todo bem será premiado e toda a culpa castigada.

Digo-vos, pois, pai e irmão caríssimo no Cristo Jesus. Deus não quer que vós ou qualquer pessoas sejais justiceis dos seus ministros. Ele reservou tal função para si e para o seu Representante (Papa). Se este se omite, apesar de ser seu dever e estar falhando, humildemente devemos esperar a punição e a correção do Supremo Juiz, o Eterno Deus.Até se por tal omissão perdêssemos todos os nossos bens, pois devemos preferir as realidades espirituais e a vida da graça a eles e à vida corporal. os bens materiais são finitos, enquanto a Graça Divina é infinita e nos propicia um prêmio eterno. Se perdermos a graça, porém, terminamos mal.

Refleti! Embora ajais com boa intenção, nem Deus e nem a Lei divina vos escusarão. CAIREIS MESMO NA CONDENAÇÃO ETERNA. Que jamais incidais num tal inconveniente. Afirmo-vos e suplico-vos, da parte de Cristo crucificado: nunca mais vos embaraceis dessas coisas. Possuí em paz vossas cidades, usando de justiça com os vossos súditos quando falharem, mas não quanto aos ministros do vosso precioso sangue. Outras mãos não vos ministrarão o Sangue, sem o qual não tereis os benefícios divinos. Vireis a ser então um membro pútrido, separado do corpo (místico) da Igreja. Oh, nunca mais, meu Pai! COM HUMILDADE QUERO QUE COMIGO RECLINEIS A CABEÇA NO PEITO DO CRISTO DO CÉU PELO AMOR, E NO PEITO DO CRISTO DA TERRA, SEU REPRESENTANTE, COM RESPEITO PELO SANGUE DE CRISTO, CUJA CHAVES ELE POSSUI. PARA QUEM O PAPA ABRIR A PORTA, ESTARÁ ABERTA; PARA QUEM ELE FECHAR, FECHADA FICARÁ. A ELE PERTENCE O PODER E A AUTORIDADE. DELES NINGUÉM O DESPOJARÁ, POIS OS RECEBEU DO PRÓPRIO JESUS (MT 16,19).

Refleti que, entre outras coisas merecedoras de castigo e desagradáveis a Deus, está a punição dada aos Ungidos de Deus, por piores que eles sejam. Pelo fato que Cristo pareça nada ver neste mundo, não pensei que menor será a punição deles na outra vida. Quando suas almas deixarem o corpo, Deus lhes mostrará que via tudo. QUERO QUE SEJAIS UM MEMBRO VIVO DA SANTA IGREJA, E NÃO UM MEMBRO APODRECIDO. Recebereis grande força e liberdade, que nenhum demônio e criatura poderão destruir. Estareis livres da escravidão do pecado mortal, livre da rebeldia à Santa Igreja, robustecido pela Graça divina presente em vós. UNIDO AO VOSSO PAI (O PAPA). PEÇO-VOS: ESTABELECEI TAL UNIÃO EM PLENITUDE SEM PERDA DE TEMPO.

(Quanto as palavras que a mesma dirigia ao Papa, procurando corrigir-lhe ou dizer aquilo que nosso Senhor lhe pedia, eram palavras que transpareciam um profundo respeito e sentimento de insignificância perante aquele a quem ela corrigia. Nunca ousou dirigir-lhe com aspereza alguma coisa, e quando a ocasião lhe necessitava dizer alguma palavra aconselhando-o, a todo momento lhe pedia perdão, pois se achava indigna de tal coisa.
Entre correções e conselhos é nos conhecido que Santa Catarina teve grande influência na volta da sede da Igreja para Roma. Mesmo em situação tão extrema a Grande Doutora da Igreja não lhe erguia a voz, mas pelo contrário pedia perdão pela sua “presunção”.)

Fonte: http://www.afecatolica.com/…/a-grande-doutora-e-o-romano-p…/

 

monte

 

Alguns amigos e alunos me perguntam o que eu acho da tese “perenialista” ou da “unidade transcendente/metafísica das religiões”. Pois é uma ideia falsa, tanto do ponto de vista religioso quanto do filosófico, por algumas razões:

1) Não existe uma “revelação adâmica” preservada “esotericamente” nas diversas religiões positivas. Isso é projeção da ideia da gnose hinduísta nas outras religiões (eles acreditam nisso). Não há “esoterismo” no catolicismo; há uma experiência mística extraordinária (que não tem a ver com algum tipo de gnose da ciência simbólica ou coisa parecida), a que poucos fiéis são chamados, mas que em nada contradiz a doutrina “exotérica” (sic): “O que vos digo às escondidas, proclamai sobre os telhados”. O místico cristão não se depara com uma “deidade ou essência divina impessoal inefável superior à Trindade de Pessoas” (alguns o dizem, mas tal é uma mística falsa). A Trindade e a Encarnação são os conhecimentos religiosos mais sublimes, dos quais todo batizado participa na medida do seu dom. Certamente, a Comunhão Trinitária de Amor é um Mistério inesgotável para a inteligência humana finita, e o será por toda a eternidade, mas isto não significa que o que Jesus nos disse sobre a vida íntima de Deus seja uma verdade “penúltima”, ou um “símbolo” de algo “mais profundo”.

2) No mesmo sentido, não há uma mesma experiência “metafísica” entre os místicos das diversas religiões. O que o místico cristão vê não é o que o suposto místico de outra religião vê. Se este último visse o que o cristão vê, então ele faria como os reis magos, iria a Israel e à Igreja, e não fundaria uma religião (ou se fundasse, ela seria parecida com a de Israel), nem permaneceria na sua religião.

3) O que existe é uma unidade “fenomenológica” da experiência religiosa, que é a base de toda religião positiva: é o fato de experimentar-nos religados à realidade, como ensina Zubiri. A busca do fundamento da “religação” irá delinear os vários caminhos religiosos, verdadeiramente, e não só “exotericamente” distintos e irreconciliáveis quanto ao teor religioso e à visão metafísica (cosmovisão), ainda que com muitos pontos de convergência, sobretudo na moral, porque os princípios da Lei Natural (o dever de buscar e honrar a Divindade ou a Verdade, honrar a vida, honrar a família, honrar a convivência pacífica) se revelam naturalmente à consciência de modo universal (havendo dificuldades apenas para o discernimento das conclusões destes princípios, em virtude do pecado original).

4) Nem, desde outra perspectiva, há “revelações” (sobrenaturais) à parte da Revelação judaico-cristã. Deus só falou aos homens em Israel e na Igreja. Nem mesmo há a noção de “sobrenatural” fora do âmbito bíblico, ou de que Deus possa dirigir-Se a nós. Nenhum hinduísta, budista, taoísta, etc., espera um Céu ou Beatitude em que encontrarão um Deus pessoal e manterão suas personalidades individuais, ainda que deificadas. Nenhum cristão, místico ou não, espera dissolver sua alma num oceano impessoal e nem mesmo no Deus pessoal, mas viver pela eternidade inseparavelmente em face de Deus (da Trindade) e dos santos (mesmo que algumas metáforas dos místicos cristãos levem a entender o contrário, o próprio dogma da ressurreição dos corpos já os desmentiria).

5) Eu li há muitos anos o “Unidade Transcendente das Religiões” do F. Schuon, e lá se manifesta um erro básico: ele diz que a realidade se constitui como “uma única Essência (divina) e duas substâncias (a divina e a cósmica)”. Se a tradução era boa, o mais adequado para expressar o que ele quereria dizer é que “há uma Substância (subsistência, suposto, ser) e duas essências (naturezas)”. Em qualquer caso, o católico sabe que isto é um erro condenado pelo Magistério, e a filosofia clássica prova racionalmente o contrário, pois Deus não é a Substância ou Forma do mundo. O mundo não está para Deus como a natureza humana de Jesus está para a Segunda Pessoa.

Para eventuais esclarecimentos  um texto sobre filosofia da religião:

Filosofia da religião e religação

Imagem: Sermão do Monte, Fra Angelico

merton

“Devido à profunda e completa conversão de meu intelecto, eu me julgava totalmente convertido. Pelo fato de acreditar em Deus e nos ensinamentos da Igreja, e de estar preparado para passar a noite toda discutindo com quem quisesse, eu imaginava que era até mesmo um cristão zeloso.

Mas a conversão do intelecto não basta. Enquanto a vontade, a ‘domina voluntas’, não pertencer totalmente a Deus, até mesmo a conversão intelectual está sujeita a permanecer precária e indefinida. Ainda que a vontade não possa forçar o intelecto a ver um objeto de modo diferente do que é, pode afastá-lo de vez do objeto e impedir que reflita sobre o mesmo.”

Thomas Merton, “A Montanha dos Sete Patamares”, Vozes 2010, pág. 209.

Colhido aqui.

“Os santos não são acessórios de crenças passadas, nem figuras de gesso inexpressivas. O santo é um homem que possui a graça de levar o mundo mais a sério do que ele merece; tão a sério que o seu caminho para o céu passa precisamente por este mundo. Levar o mundo a sério é a lição dos santos. Os santos não são infalíveis; mas são resolutos. Não vacilam entre um puerilismo ingênuo e a adoração do poder. Não são modernos nem antigos: representam o eterno. Sabem que a espada do espírito é mais cortante que a espada de aço. Quem não acreditar estará perdido. Quem acreditar será salvo.”

Otto Maria Carpeaux

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O site ACI digital informou na última sexta-feira, 14 de outubro que a hipocrisia, o olhar-se no espelho dos fariseus denunciados por Jesus foi o tema central da homilia do Papa Francisco na Missa na Casa Santa Marta. Durante seu ensinamento, convidou a tomar cuidado com este “fermento ruim”: a “levedura dos fariseus”.

O Santo Padre explicou que “existe um fermento bom e um fermento ruim. O que faz crescer o Reino de Deus e o que faz somente a aparência do Reino de Deus. O fermento faz sempre crescer; quando é bom, se torna um bom pão, uma boa massa, porque cresce bem. Já o fermento ruim não faz crescer bem”.

Para explicar esta mensagem, Francisco contou uma anedota de sua infância: “Lembro-me que no Carnaval, quando éramos pequenos, a vó fazia biscoitos com uma massa bem fina. Ela a jogava no óleo e ela inchava, crescia… mas quando começávamos a comer, víamos que o biscoito era vazio… a vó dizia ‘são como as mentiras: parecem grandes, mas não têm nada dentro, nada de verdade; não têm substância’. Jesus nos diz: ‘Fiquem atentos, guardem-se do fermento ruim, o dos fariseus’. E qual é? A hipocrisia. Protejam-se bem do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia”.

O Bispo de Roma advertiu que “a hipocrisia é uma divisão interna. É quando se diz uma coisa e se faz outra. É uma espécie de esquizofrenia espiritual. O hipócrita é um simulador: parece bom, gentil, mas tem um facão dentro de si!”.

“Pensemos em Herodes – disse o Santo Padre –, com quanta cortesia havia recebido os Reis Magos! E depois, no momento de se despedir, diz: ‘Vão, mas voltem, e me digam onde está o menino, para que eu vá adorá-lo’. Para matá-lo! O hipócrita tem duas caras!”.

“Jesus – continuou –, falando destes doutores da lei, diz: ‘Estes dizem e não fazem’: uma outra forma de hipocrisia; um nominalismo existencial: quando acreditam que, dizendo as coisas, se faz tudo, mas não. As coisas devem ser feitas e não só ditas”.

O Papa explicou que “o hipócrita é um nominalista; acha que falando, se faz tudo. O hipócrita é também incapaz de se auto acusar. Nunca vê uma mancha em si mesmo; acusa os outros. Pensemos no cisco e na trave… e assim podemos descrever este fermento, que é a hipocrisia”.

O Pontífice convidou as pessoas que estavam presentes na Missa a fazer um exame de consciência e perguntou: “Com que espírito fazemos as coisas? Com que espírito rezamos? Com que espírito me dirijo aos outros? Com o espírito que constrói? Ou com o espírito que se transforma em ar?”.

Neste sentido, citou o exemplo das crianças: “Com quanta verdade as crianças se confessam! Nunca, nunca as crianças dizem mentiras na confissão; nunca dizem coisas abstratas. ‘Fiz isso, aquilo, aquilo outro…’ sempre concretas. As crianças, quando estão diante de Deus e diante dos outros, dizem coisas concretas. Por quê? Porque têm o fermento bom, o fermento que as faz crescer como cresce o Reino dos Céus”.

Evangelho comentado pelo Papa:

Evangelho (Lucas 12,1-7)

Naquele tempo, milhares de pessoas se reuniram, a ponto de uns pisarem os outros. Jesus começou a falar, primeiro a seus discípulos: “Tomai cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não há nada de oculto que não venha a ser conhecido.

Portanto, tudo o que tiverdes dito na escuridão, será ouvido à luz do dia; e o que tiverdes pronunciado ao pé do ouvido, no quarto, será proclamado sobre os telhados.

Pois bem, meus amigos, eu vos digo: não tenhais medo daqueles que matam o corpo, não podendo fazer mais do que isto. Vou mostrar-vos a quem deveis temer: temei aquele que, depois de tirar a vida, tem o poder de lançar-vos no inferno.

Sim, eu vos digo, a este temei. Não se vendem cinco pardais por uma pequena quantia? No entanto, nenhum deles é esquecido por Deus. Até mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.

Fonte do texto/imagem: http://www.acidigital.com/noticias/e-um-hipocrita-e-um-mentiroso-papa-francisco-tem-algo-a-dizer-34550/

"A religião não era o ópio e sim a poesia da humanidade".

(Harold Bloom sobre Flannery O'Connor).

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